Análise Global de Lausanne

Setembro de 2014 • Volume 3 │Edição 5

As megaigrejas e suas implicações na Missão Cristã

megachurches

Este artigo examina o surgimento de megaigrejas, tomando-o como um fenômeno global, e investiga as implicações dessas novas comunidades eclesiásticas nas missões. Megaigrejas são congregações extraordinária ou excepcionalmente grandes, sobretudo pertencentes ao ramo evangélico conservador ou ao braço pentecostal/carismático do Cristianismo. Historicamente associadas ao continente norte-americano, as megaigrejas já chegaram à África, à Ásia e à América Latina. As novas comunidades reunidas em megaigrejas são conduzidas por pregadores carismáticos que, por essa característica, encabeçam ministérios que alcançam centenas de milhares de pessoas, ou até milhões delas, por meio de programas veiculados na mídia e outros recursos, como livros e gravações em vídeo.

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Em dias de culto “normal” ou “típico”, as verdadeiras megacongregações reúnem regularmente, em uma única comunidade de adoração, uma quantidade enorme de pessoas:

  • A regularidade é importante porque algumas igrejas atraem muita gente apenas durante reuniões de avivamento para as quais são convidados pastores de grande popularidade.
  • As verdadeiras megaigrejas atraem pessoas com base na influência de seus líderes, no carisma, no dinamismo da adoração e na medida em que as necessidades religiosas de seus frequentadores são atendidas.
  • Os testemunhos dos que já são membros ajudam a aumentar o rebanho.

Sinais de sucesso

Os que se incluem nessas vertentes do Cristianismo veem as megaigrejas como símbolos representativos de sucesso ministerial e como extensões do reino de Deus. Líderes norte-americanos de megaigrejas, tais como Creflo Dollar, Joel Osteen e T. D. Jakes, inspiraram muitos ministérios semelhantes em outros continentes. Em busca de estímulos espirituais mais modernos e entusiásticos, cristãos desencantados com a segregação denominacional e o liberalismo teológico consideram as megaigrejas opções interessantes.

É preciso cautela para não construir uma nova teologia da megaigreja, sugerindo que tais empreendimentos são, necessariamente, indícios de êxito missionário.

Em geral, na transmissão de seus cultos, essas igrejas ostentam formidáveis auditórios e sofisticado aparato tecnológico que lhes serve de suporte à adoração; tudo isso representa avanço, sucesso e prosperidade. Elas anseiam por crescimento numérico e, com orgulho, citam seus índices como provas de relevância espiritual e evangelização bem-sucedida, além de promover louvores cujo estilo corresponde às expectativas e às necessidades do mundo contemporâneo. Em vista disso, muitas dessas igrejas tendem a se mostrar não denominacionais, o que ajuda a atrair jovens e profissionais de ascendência vinculada a qualquer outra denominação.

Fatores denominacionais

As megaigrejas podem estar afiliadas a alguma denominação ou ser totalmente independentes. Assim, embora a Igreja do Evangelho Pleno de Yoido, de David Yonggi Cho, em Seul, na Coreia do Sul, seja vinculada às Assembleias de Deus, é considerada uma megaigreja por causa da quantidade de pessoas que comumente frequenta os cultos ali. Os 700 mil adoradores que se dividem entre os muitos cultos dominicais da Igreja do Evangelho Pleno tornam essa congregação uma das maiores do mundo.

Há casos em que grandes denominações se recusam, mediante sua política de discipulado, a construir megaigrejas:

  • Surgida em Gana, a Igreja de Pentecostes é uma grande e tradicional denominação pentecostal com diversas congregações locais e internacionais.
  • Embora esteja em clara expansão, a Igreja de Pentecostes optou por uma abordagem comunitária no que se refere à plantação de congregações.
  • As políticas da igreja não permitem que congregações locais sejam seletivas na formação de seu rol de membros.
  • Em razão disso tudo, a Igreja de Pentecostes chega a ter diversas congregações com, no máximo, 500 membros cada uma, num raio inferior a 300 metros de distância uma da outra.

O atrativo das megaigrejas

As megacongregações se desenvolvem em função dos dons espirituais de um líder autorizado. Na África, curas, libertações e dons proféticos tendem a ser bastante atraentes nesse sentido. No mundo ocidental moderno, com sua notória apologia ao relativismo moral e com a privatização da religião, os evangélicos gravitam na direção dessas comunidades por causa da ênfase que elas colocam nos princípios bíblicos. Portanto, a noção de megaigreja é inspirada em compreensões muito particulares acerca do discipulado e em entendimentos muito subjetivos quanto ao que significa ser uma comunidade de Deus.

Fomentador desse conceito de igreja, o viés neopentecostal do Cristianismo é inerentemente evangelístico por causa da relação entre, de um lado, a promessa do Espírito Santo e o poder para testemunhar e, de outro, o crescimento da igreja. Os que se opõem a isso referem-se ao fato de que em grandes congregações é difícil sustentar os quatro pilares que mantêm a igreja como uma comunidade dinâmica de cristãos: estudo da Palavra, comunhão, oração e partir do pão (At.2:42-47). Em Above all Earthly Powers: Christ in a Postmodern World [Sobre todo poder terreno: Cristo num mundo pós-moderno], David F. Wells situa o florescimento das megaigrejas estadunidenses no contexto da cultura pós-moderna. De acordo com Wells, comunidades cristãs que operam como “igrejas de suplicantes” funcionam em meio a “mercados” de opções até mesmo religiosas, e o que vemos hoje em dia é o aumento do mercado consumidor e não do mercado fornecedor.1

O surgimento de megaigrejas no contexto pós-moderno do hemisfério sul ilustra três fenômenos importantes do Cristianismo mundial:

  • O fato de a recessão da presença cristã no norte coincidir com o avanço da fé observado em contextos não ocidentais.
  • O declínio da fidelidade denominacional na vida religiosa, em favor da espiritualidade cristã reavivada.
  • A popularidade do evangelho da prosperidade2 no neopentecostalismo, evangelho esse fundamentado na relevância do “tamanho” como indicador de sucesso.

Falhas e frustrações

Em Gana, a Igreja Internacional Capela do Farol não apenas se apresenta como megaigreja como também seu programa televisivo, disponível via sinal de satélite digital, é denominado Megapalavra. Em The Mega Church: How to Make Your Church Grow [A megaigreja: como fazer sua igreja crescer], Dag Heward-Mills, bispo da Capela do Farol, aponta 25 motivos pelos quais alguém deve ter uma megaigreja. De acordo com Heward-Mills, os pastores devem desejar ter congregações desse tipo porque “essas são a visão e a meta mais apropriadas para um pastor” e porque “o anseio por uma megaigreja conduz a um crescimento eclesiástico”.3

Obviamente, deve haver vantagens em ter uma megaigreja. Contudo, os 25 motivos listados pelo bispo Heward-Mills evidenciam que, além do desejo pentecostalista de conquistar almas em termos numéricos, muitas dessas justificativas estão relacionadas a benefícios práticos, financeiros e outras vantagens materiais. Isso inclui estar “devidamente antenado” e angariar mais recursos financeiros. A lista do bispo dá a impressão de que basta desejar construir uma megaigreja para que isso logo ocorra. Esse é um ensinamento que tem causado muita frustração entre alguns líderes de igrejas independentes, os quais enxergam a falta de crescimento numérico como sinal de falha no empenho missionário.

Temos notado que esse anseio dos neopentecostais por construir igrejas imensas não deixa de ter relação com sua hermenêutica voltada ao crescimento e à prosperidade. No âmbito da teologia adotada nessas igrejas, praticamente tudo aquilo em que o cristão tocar deve prosperar. A expansão territorial é um aspecto importante dessa hermenêutica. Assim, a oração em que Jabez invoca que Deus “alargue” suas fronteiras (1Co.4:9-10) é amplamente usada para sustentar a ideia de que Deus faz seus filhos progredirem, inclusive privilegiando – com crescimento numérico do rebanho – os que atuam na liderança pastoral.

Há vívidos testemunhos que alegam que Deus usa as megaigrejas e seus líderes a fim de operar grandes feitos missionários. Entretanto, em igual medida, há relatos de fracassos e vexames decorrentes das expectativas de pessoas ávidas por impérios religiosos. A história de Jim e Tammy Faye Bakker é bastante conhecida:

  • Sua ambição e compromisso em construir a maior das igrejas resultaram em todo tipo de problema, incluindo deslizes morais, divórcios e até mesmo prisões.
  • Jim Bakker assim evoca parte de seu sonho impossível, que o acabou levando à derrocada: “O Centro Ministerial Palácio de Cristal seria o maior edifício do mundo. Uma vez finalizada a construção, o auditório comportaria 30 mil pessoas; além disso, disporia de divisórias removíveis e automatizadas que se organizariam de modo a comportar diversos grupos menores”4.

Projetos desse tipo e outros ainda mais grandiosos vêm florescendo em todo lugar, incluindo a África e a América Latina, onde já existem igrejas neopentecostais com assentos para 50 mil pessoas. Duas dessas congregações são a Igreja Cristã Redimida de Deus e a Igreja Mundial Fé Viva (ou Capela dos Vencedores), ambas na Nigéria.

Consequências

Em todo o mundo, há comunidades cristãs às quais o conceito de megaigreja trouxe graves consequências:

  • Muitas vezes, o tamanho das instituições dificulta a administração e a prestação de contas.
  • Alguns líderes de megacongregações têm sido vítimas de seu próprio sucesso; há quem chegue a enfrentar dificuldades emocionais e problemas morais.

Quanto ao Brasil, que hoje tem algumas das maiores igrejas pentecostais do mundo, Paul Freston relata que, na esteira do rápido crescimento numérico, vieram escândalos, lideranças autoritárias e favores políticos que levaram à perda da neutralidade política, o que afetou a imagem dessas instituições.

São muitos os exemplos de megaigrejas bem-sucedidas e não há nenhuma razão para acreditar que toda megacongregação seja indevidamente gerida. O crescimento das megaigrejas pode ser um sinal legítimo da atuação divina em várias regiões do mundo. O fato de muitas dessas igrejas se situarem no Ocidente moderno, onde o Cristianismo está em plena recessão, oferece motivos reais para crer na influência do evangelho de Jesus Cristo.

Recomendações

É preciso cautela, contudo, para não construir uma nova teologia da megaigreja, sugerindo que tais empreendimentos são, necessariamente, indícios de êxito missionário. O bom gerenciamento da organização para que esta exerça máxima influência é o que deve ser levado em conta.

Devemos agradecer a Deus sempre que uma megaigreja usar seus recursos na divulgação do evangelho. Devemos também mostrar-nos sensíveis ao fato de que, em determinados contextos, igrejas menores, em comunidades locais, talvez sejam o ideal.

O exemplo bíblico de progresso citado em Atos dos Apóstolos revela que o Senhor é quem provê o crescimento. Seja a congregação grande, seja pequena, o importante é evitar o espírito competitivo em missões e prover alimento apropriado, o qual conduz à maturidade cristã que encarna a autodoação (Fp.2:1-11).

Notas

1 WELLS, DAVID F. Above All Earthy Powers: Christ in a Postmodern World. Grand Rapids, MI: Wm B Eerdmans, 2005. p. 270.

2 Veja o artigo (em inglês) “The Prosperity Gospel and Its Challenge to Mission in Our Time”, de J Kwabena Asamoah-Gyadu, na edição de julho de 2014 de Lausanne Global Analysis. Disponível em: <http://www.lausanne.org/en/documents/global-analysis/july-2014.html>.

3 HEWARD-MILLS, Dag. The Mega Church: How to Make Your Church Grow. Accra: Parchment House Publishers, 2011. p. 1-19.

4 BAKKER, Jim. I Was Wrong: The Untold Story of the Shocking Journey from PTL Power to Prison and Beyond. Nashville, TN: Thomas Nelson Publishers, 1996. p. 37.

5 FRESTON, Paul. The Future of Pentecostalism in Brazil: The Limits of Growth. In: HEFNER, Robert W. (Ed.). Global Pentecostalism in the 21st Century. Bloomington/Indianapolis: Indiana University Press, 2013. p. 64.

Referências e sugestões de leitura complementar

ANDERSON, Allan H. To the Ends of the Earth: Pentecostalism and the Transformation of World Christianity. Oxford: Oxford University Press, 2013.

ASAMOAH-GYADU, J Kwabena. Contemporary Pentecostal Christianity: Interpretations from an African Context. Oxford: Regnum Oxford International, 2013.

BAKKER, Jim; ABRAHAM, Ken. I Was Wrong: The Untold Story of the Shocking Journey from PTL Power to Prison and Beyond. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1996.

FRESTON, Paul. The Future of Pentecostalism in Brazil: The Limits of Growth. In:HEFNER, Robert W. (Ed.). Global Pentecostalism in the 21st Century. Bloomington/Indianapolis: Indiana University Press, 2013.

GIFFORD, Paul. African Christianity: Its Public Role. Bloomington/Indianapolis: Indiana University Press, 1998.

______. Ghana’s New Christianity: Pentecostalism in a Globalizing African Economy. Bloomington/Indianapolis: Indiana University Press, 2004.

HEWARD-MILLS, Dag. The Mega Church: How to Make Your Church Grow. 2. ed. Accra: Parchment House Publishers, 2011.

JENKINS, Philip. The Next Christendom: The Coming of Global Christianity. Oxford: Oxford University Press, 2007.

MILLER, Donald E. Reinventing American Protestantism: Christianity in the New Millennium. Berkeley: University of California Press, 1997.

POEWE, Karla. Charismatic Christianity as a Global Culture. South Carolina: University of South Carolina Press, 1994.

SHAW, Mark. Global Awakening: How 20th-Century Revivals Triggered a Christian Revolution. Downers Grove, IL: Intervarsity Press, 2010.

WELLS, David F. Above all Earthly Powers: Christ in a Postmodern World. Grand Rapids, MI: Wm B Eerdmans, 2005.

 

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J Kwabena Asamoah-Gyadu é professor de Cristianismo Africano Contemporâneo e de Pentecostalismo no Trinity Theological Seminary, em Legon, Gana, e integra o Grupo de Trabalho Teológico de Lausanne.

02 Sep 2014

Lausanne Global Analysis

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