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Análise Global de Lausanne

Janeiro de 2017  •  Volume 6 │Edição 1

Eleições presidenciais dos EUA 2016: uma perspectiva caribenha sobre como reagir

cinco áreas chave para observar

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Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; ²pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. 1ª Timóteo 2:1-2

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No contexto do poderoso Império Romano, a preocupação pastoral de Paulo pelo papel da igreja na sociedade foi expressada de forma pontual em seu conselho ao seu líder jovem e aprendiz, pastor Timóteo, em 1 Timóteo 2:1-2.

Aconselhamento pastoral para a igreja

Seu aconselhamento pastoral tem duas dimensões. Primeiramente, ele chama a atenção ao poder e à necessidade de intercessão pela liderança política e cívica do estado: Recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade. Paulo enfatiza a oração como o recurso de Deus para liberar ajuda divina a todos, especialmente aos que estão em posições de autoridade.

Em segundo lugar, ele claramente faz referência à importância do objetivo da liderança: para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. Paulo enfatiza a importância da liderança, porque a liderança é importante em qualquer âmbito de atuação. Ela influencia e carrega consequências.

Ele impele o envolvimento cristão em vez de uma religiosidade que se abstêm ou que ignora a ordem do dia. A igreja deve interceder com profundas súplicas em oração e intercessão pelas pessoas que estão na liderança. Ele impele essa ação para o bem maior da sociedade, a fim de que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade’. Paz, uma vida tranquila, e dignidade diante de Deus são seu ideal para seu povo e sua ordem de sociedade criada.

Observando as eleições dos EUA

Enquanto as pessoas, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos, observavam o desenvolvimento da campanha para eleições presidenciais de 2016, houve confusão, angústia e medo. Talvez os que assistiram de longe pensaram que estavam testemunhando uma corrida incrível para determinar o nível mais baixo das disputas políticas pelo poder. A expectativa era que as eleições norte-americanas seriam um exemplo para o mundo de democracia-em-ação, com o corte e impulso robustos da política democrática da mudança. Em vez disso, um novo tipo de política se tornou completamente pública, a política da destruição do caráter pessoal dos oponentes e a busca desenfreada pelo poder independentemente dos meios. Ao longo da campanha eleitoral, uma avalanche de inverdades e falsidades conhecidas e decepções foi defendida como se fosse verdade bíblica.

A editora Oxford Dictionaries anunciou sua palavra internacional do ano de 2016: ‘pós-verdade’. A justificativa foi ‘o aumento de afirmações falsas feitas por líderes políticos em grandes eleições ao redor do globo e o aumento do uso da palavra na língua inglesa acima dos 2.000% desde 2015’. Ela descreve o uso da linguagem que apela às emoções e julgamento de valores das pessoas, contra a racionalidade objetiva de fatos conhecidos e demonstráveis. Parecia que o uso disseminado de ‘pós-verdades’ na campanha apontava à queda de um código moral e ético em que o errado agora precisava ser aceito como correto e o correto se tornara errado.

Isto levantou questionamentos. Seria este o futuro da política norte americana, e consequentemente, da política global? É isto que deveríamos esperar da liderança e influência norte-americana no mundo? Será que moralidade e a ética ainda têm um papel a cumprir nas campanhas e plataformas políticas?

Preocupações caribenhas

Em todo o Caribe há uma apreensão real sobre a conduta e resultado das eleições. Há sérias repercussões que afetam o relacionamento entre os EUA e o Caribe. Na medida em que os líderes de igrejas e outros líderes civis e políticos no Caribe refletiram sobre o processo e resultado, eles identificaram cinco áreas específicas para observar, de uma perspectiva caribenha, na nova ordem da política norte-americana e liderança no mundo.

  1. O clima no futuro

Os lindos países do Caribe são parte dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (Sigla em inglês: SIDS).[1]

Eles estão ansiosos para saber qual rumo a nova administração dos EUA irá tomar com relação à luta por um clima mais sustentável no futuro. Eles acreditam que este futuro pode ser garantido se os líderes globais concordarem e lutarem para reduzir os gases de efeito estufa, limitarem o aumento de temperatura, monitorarem nosso carbono, limitarem a queima de combustíveis fósseis e fornecerem energia mais limpa. Da perspectiva dos pequenos estados em desenvolvimento, que são muito vulneráveis às vicissitudes da mudança climática, os líderes caribenhos estão certos de que nunca deixarão a evidência esmagadora sobre a realidade das mudanças climáticas ser ocultada e rejeitada por aqueles que negam ou buscam obstruí-la para seus propósitos egoístas.

Em toda a região, diversos líderes caribenhos indicaram que estão prontos para lutar pela sobrevivência econômica e ambiental da região. A campanha do Caribe “1.5 to Stay Alive” [“1.5 para ficarmos vivos”, em tradução livre] foi um grito pela sobrevivência que antecedeu a Cúpula do Clima de Paris de 2015 e continuou após o encontro. O Acordo Global COP21 foi um grande feito.[2] Os líderes caribenhos acreditam que deve ser mantido e que os EUA devem cumprir com o compromisso assumido.

Para a igreja global, O compromisso da Cidade do Cabo de Lausanne (CCC, 2010) é um marco documental. Ele encoraja cada cristão de todo o mundo a “exercer meios legítimos para persuadir os governos a colocar imperativos morais acima de interesses políticos em questões relacionadas à destruição ambiental e à mudança climática em potencial” (CCC II-B-6-B). As palavras, tão fortes para a igreja global, foram baseadas na convicção de que “não podemos dizer que amamos a Deus enquanto destruímos o que pertence a Cristo por direito de criação, redenção e herança” (CCC 1-7-A).

Os líderes evangélicos, pentecostais e ecumênicos do Caribe têm sido mobilizados para defenderem um futuro climático mais sustentável. Eles reconhecem a causa em comum para o único verdadeiro e vivo Deus a quem pertence o universo e que ordena que seu povo seja mordomo de sua criação para o bem e sustentabilidade de toda a humanidade.

  1. Política global de comércio

A campanha eleitoral testemunhou diversas “pós-verdades” sendo ditas contra o comércio global, com alegações de que isto era contra o interesse nacional dos EUA. A alternativa oferecida era o protecionismo norte-americano, a isolação e a atitude de “eu e meu país primeiro”. Aos líderes caribenhos, isso não parece ser um bom exemplo para o mundo.

Como pequenos estados em desenvolvimento, os países do Caribe dependem das boas relações comercias com o seu vizinho grande. Nossa região não pode se dar ao luxo de ser ignorada, negligenciada ou maltratada por seu vizinho ou quaisquer outros países. Se isso acontecer sob uma nova administração norte-americana com visão estreita, a região do Caribe irá sofrer uma queda pronunciada. Pobreza, crime e, portanto, os fluxos migratórios vão aumentar.

O comércio global é vital. Cada país depende do comércio para impulsionar o crescimento econômico, criar empregos, garantir o bem-estar social e criar oportunidades para restaurar a dignidade dos pobres. As igrejas no Caribe estão lutando com essa questão há mais de dois séculos. Elas querem ajudar suas congregações a encontrarem empregos e poderem cuidar de suas famílias. Elas acreditam que as nações devem buscar o comércio livre e justo e garantir melhores salários aos trabalhadores – “o trabalhador merece seu salário” (1 Tm 5:18). Então, as igrejas se tornaram defensoras ainda mais fortes do comércio global.

A região quer e precisa do envolvimento dos EUA em acordos bilaterais, hemisféricos e globais, especialmente em nosso mundo multipolarizado. Os líderes caribenhos insistem que as economias mais fortes, incluindo a dos EUA, protejam e defendam as economias mais fracas, ajudando também o seu crescimento e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, estão preocupados com o embargo comercial de longa data dos EUA contra Cuba e o efeito da pobreza esmagadora sobre as crianças e famílias no Haiti.

A liderança dos Estados Unidos é necessária, especialmente em uma era em que superpotências se levantam, como a China, cujo interesse e influência no Caribe, e em outras regiões, se tornaram relativamente extensivos.

  1. Igualdade matrimonial

Uma das grandes questões da campanha foi a chamada “igualdade matrimonial”. O Caribe é uma das regiões que foi pressionada pelo Departamento de Estado dos EUA à adotar uniões de mesmo sexo e igualdade matrimonial sob a política externa e o programa de direitos humanos dos EUA. O governo e líderes de igrejas em toda a região foram especificamente procurados pelo governo dos EUA para promulgarem uma legislação para esse fim.

As igrejas na região reagiram fortemente à essa pressão. Em junho de 2014, os líderes de igrejas jamaicanas lideraram uma manifestação pública chamada “Jamaica Cause” [Causa Jamaicana], mobilizando uma multidão de cerca de 30.000 pessoas. No geral, a igreja e sociedade caribenhas são contra a promoção do estilo de vida e construções familiares norte-americanas que consideram hostis à sua cultura e bem-estar.

À medida em que algumas seções da igreja, especialmente as igrejas mais antigas e bem estabelecidas, argumentam a favor de uma abordagem mais conciliatória, muitos pastores das igrejas evangélicas e pentecostais, além dos cidadãos comuns, têm resistido duramente.

As eleições presidenciais parecem ter realçado questões sobre direitos de aborto, LGBTQ, e a extensão da tolerância em uma sociedade diversa e pluralística. Estas questões são relevantes ao Caribe e à igreja caribenha. Novamente, O compromisso da Cidade do Cabo provê orientações muito úteis para a igreja global, impelindo todos os cristãos a rejeitarem “desordens sexuais” (CCC II-E-2), enquanto demonstram o amor e compaixão de Cristo para todas as pessoas.

  1. Migração e globalização

A imigração ilegal foi um dos principais temas discutidos na campanha. Muitos dos imigrantes ilegais nos EUA são de origem caribenha. Na questão de crime organizado e redes de gangues criminosas, há conexões inegáveis entre o Caribe e os EUA. Estas redes fomentam o crime transnacional e a violência em ambos os lados. Isso precisa ser resolvido. O Caribe aceita de braços abertos e precisa de melhores políticas de imigração e de sistemas efetivos para refrear a imigração ilegal. Os países do Caribe, como a Jamaica, se beneficiaram grandemente de programas nos EUA para trabalhadores selecionados, que por sua vez auxiliaram a economia dos Estados Unidos e também muitas famílias pobres na região de origem.

As igrejas no Caribe são afetadas por essa questão:

  • Alguns pastores estão lidando com o desafio de oferecer aconselhamento pastoral e orientação às congregações e comunidades que estão nas áreas de conflito controladas por gangues.
  • As igrejas na Jamaica, por exemplo, estão se juntando aos oficiais de aplicação da lei para analisar como lidar melhor com esta situação que se tornou um grande problema social.
  • Crianças, famílias e comunidades locais dependem do relacionamento transnacional entre os EUA e o Caribe, e estão ansiosos sobre como será este relacionamento no futuro. Muitos estão buscando as igrejas para ajuda e aconselhamento.

Os EUA devem se proteger contra a retração ligada ao excepcionalismo e autoisolação. Vivemos num ambiente global. O Caribe gostaria de ver os pastores e as igrejas dos Estados Unidos agindo contra as hostilidades contra imigrantes, refugiados, trabalhadores imigrantes e “estrangeiros” em seu meio. Eles devem acolher o estrangeiro e ao que busca asilo, ao perdido e ao solitário. Isto é o que Cristo teria feito. É isto que Ele chama sua igreja a fazer.

  1. Paz global e segurança

O Caribe sabe bem sobre a extensão dos conflitos e guerras ao redor do globo. Como habitantes da sub-região das Américas, são constantemente lembrados das palavras do ícone da música Jamaicana, Bob Marley: “So much trouble in the world” [“Tantos problemas no mundo”].

O Caribe enfrentou por anos violência, conflito e guerra civil. Na história da região, as pessoas estão conscientes sobre o uso do poderio militar dos EUA em tentativas de mudança de regime. Os povos caribenhos sentem que é tempo para a paz. Eles sabem que é tempo para a cura e a reconciliação entre as pessoas.

Em sua pregação e ministério de ensino, a igreja dos EUA e do Caribe devem proclamar o evangelho de Jesus Cristo, que é sobre paz, verdade e reconciliação. A igreja dos EUA e do Caribe devem trabalhar juntas, em parceria, construindo a paz nas comunidades locais e ajudando a fortalecer a paz e segurança global.

Esta é a hora para as parcerias globais entre igrejas para iniciativas de promoção da paz. Jesus disse aos seus discípulos: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mt 5:9).

Conclusão

A política importa. A liderança política é importante. O conselho de Paulo a Timóteo é o conselho de que todos os pastores precisam neste momento. O conselho é que a igreja interceda com profundas súplicas e intercessão por todos, especialmente os governantes. Ele impele esta ação para o bem de toda a sociedade. Não é um conselho para retirar-se e ignorar as questões, mas sim para uma prática e profundo envolvimento espiritual e prático por parte da igreja.

Estas cinco questões – o futuro do nosso clima, a proteção dos ensinamentos bíblicos sobre casamento e família, comércio livre e justo, migração e o impacto da globalização e a paz e segurança globais – são áreas-chave a serem observadas em nossa região à medida que a administração norte-americana toma forma. O impacto que elas terão nas habilidades e capacidades do povo caribenho para que ele tenha “uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade” é vital para nossa sobrevivência e bem-estar.

Nota do editor

Líderes de diversas regiões do mundo foram convidados para oferecer reflexões teológicas e orientações pastorais sobre o impacto em potencial das eleições norte-americanas no ministério cristão em suas regiões. Aqui estão alguns dos comentários.

Da África

Gideon Para-Mallam, Nigéria – Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES) Secretário internacional para a África de língua inglesa, portuguesa e espanhola (ALIPE).  Com base nas interações com líderes de igrejas e missões da Nigéria, Quênia, África do Sul, Uganda, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Moçambique, Zâmbia, Tanzânia, Serra Leoa e Etiópia.

Quem realmente precisa de orientação são os líderes emergentes; na verdade, o futuro é incerto no momento… Os líderes emergentes deveriam ter a visão clara do que a igreja precisa para focar novamente seu compromisso com a igreja global no clima político incerto atual… Os líderes globais cristãos precisam ajudar suas igrejas a pensarem de forma bíblica sobre a direção futura do evangelho sem a manipulação dos políticos, que parecem mais adeptos em usar a igreja para dar seguimento à sua agenda política em vez de o contrário. As realidades globais complexas sugerem que intencionalmente promovamos a agenda missiológica de Deus ao nos envolvermos com o que John Stott descreveu como ouvir em dobro: ouvir à palavra de Deus e ao mundo.

Da América Latina

Daniel Bianchi, Argentina – Diretor Regional do Lausanne na América Latina Após um questionário feito com líderes em 17 países da América Latina e do Caribe de língua espanhola.

Será que a igreja continuará a falar contra tudo [que é] contra o evangelho da justiça, compaixão e reconciliação? Será que a igreja continuará a buscar o avanço e os interesses do reino acima de quaisquer outras considerações de poder ou cultura?

Do Sul Asiático

Dr. Jacob Cherian, Índia—Vice-presidente e reitor do corpo docente na Southern Asia Bible College.

Qualquer ideia de supremacia racial… deve ser condenada, com força e de forma aberta, especialmente pelos evangélicos brancos da América e Europa. Isto com certeza ajudará aqueles que pregam o evangelho em países como o Paquistão, Índia e Indonésia, onde muitas ações anticristianismo são fomentadas por sentimentos antiamericanos ou antibrancos… se os evangélicos euro-americanos não afirmarem de forma clara e categórica seu completo apoio às minorias religiosas e raciais (como muçulmanos, hindus, afro-americanos, budistas), eles estarão ferindo os cristãos no Ásia do Sul, uma vez que somos microminorias aqui.

Notas

1. Nota do Editor: Veja o artigo ‘Mudança Climática na Oceania’ por Mike Pope na edição de Março de 2014 da Análise Global de Lausanne (artigo em inglês).

2. Nota do editor: Veja o artigo ‘Mudança climática após Paris’ por Ed Brown, na edição de Maio de 2016 da Análise Global de Lausanne.

3. Leia a declaração completa no site https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/declaracao-da-consulta-pt-br/cuidado-com-a-criacao-chamado-a-acao [Disponível em português].

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Las G Newman, PhD, é o Diretor global de regiões do Movimento. Ele mora em Kingston, Jamaica, e foi presidente da Caribbean Graduate School of Theology (CGST) em Kingston. Foi o anfitrião da Consulta global de Lausanne sobre cuidados com a criação e o evangelho na Jamaica em 2012 e contribuiu com o livro Cuidados com a criação e o evangelho: reconsiderando a missão da igreja (2016).

Minke E. Newman, PhD, é biólogo ambiental na University of the West Indies (Campus Mona), Jamaica. A maior parte do seu trabalho envolve pesquisar o impacto do desmatamento de Cockpit Country, a principal bacia hidrográfica da Jamaica. Ela foi uma organizadora voluntária na Consulta global de Lausanne sobre cuidados com a criação e o evangelho na Jamaica em 2012 e uma das participantes caribenhas no Encontro de Líderes Jovens de Lausanne em 2016 na Indonésia.

19 Jan 2017

Lausanne Global Analysis

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