A medicina é exercida em contextos muito variados, com um acesso desigual aos recursos (incluindo infra-estruturas físicas, pessoal, opções de pesquisa e tratamento, etc.) e em contextos socioeconômicos bem diferentes. Além disso, é uma atividade dispendiosa, e mesmo os países ricos do Ocidente têm dificuldades para suportar os custos crescentes dos cuidados de saúde. É também uma iniciativa armadilhada e complexa no que toca à moralidade (alguma dessa complexidade está associada aos custos de tratamento e à correspondente importância da medicina em relação a outras necessidades socioeconômicas).

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Mais importante para os nossos objetivos é o fato de ser uma área em que a igreja tem investido bastante como expressão de cuidado pelos desfavorecidos e vulneráveis e da missão de Deus no mundo.[1] Portanto, vale a pena tirar algum tempo para entender o mundo da medicina e como deveríamos refletir sobre ela e lhe dar resposta.

A medicina no Ocidente

A medicina “Ocidental” insere-se num contexto de riqueza e privilégio. Ela inclui uma rede interligada de serviços e infra-estruturas que possibilitam um cuidado sofisticado, integrado em acordos sociais complexos e sofisticados, sem os quais a sua prática é impossível de imaginar.

Nestes contextos, a medicina, embora altamente eficaz, enfrenta muitas pressões:

lga-medical-ageingUma população envelhecida e o aumento dos custos com saúde;

lga-medical-technologyÊnfase em tecnologias médicas sofisticadas em detrimento do cuidado do doente;

lga-medical-bureaucracyAumento do escrutínio burocrático e controlo de padrões de tratamento e passagem de receitas, em parte devido ao “bom rendimento” das companhias de saúde;

lga-medical-questionsO problema dos “objetores de consciência” e o papel dos valores religiosos na administração de cuidados de saúde

lga-medical-endoflifeCuidados terminais.

Estas pressões são geradas por uma estranha mistura de forças culturais e técnicas: conceitos “biomédicos” reducionistas (nos quais a saúde e a doença são vistas primeiramente como questões biológicas, sujeitas ao controle médico), em conjunto com a crença na competência ilimitada da tecnologia (que supõe a existência de uma resposta médica para cada problema humano) e um consumismo médico irracional (que assume que se eu quero algo e posso pagar – ou encontrar alguém que pague por mim – então não existe motivo para essa coisa me ser negada).

A medicina deixa de ser uma profissão (uma prática com valor moral, realizada por agentes morais para fins morais) e se torna um produto de consumo biomédico cujo objetivo é a “saúde” (cura) e o desaparecimento do sofrimento e da limitação pessoal (melhoria). Se transforma numa atividade idólatra, incorporando os valores falsos dos países “desenvolvidos”.[2]

Além disso, não existe uma linguagem moral partilhada com o qual se pode engajar um diálogo com significado. O discurso público se reduz a debates superficiais sobre a utilidade e a maximização da escolha individual (sem que tais escolhas sejam direcionadas para fins específicos ou limitadas por valores objetivos). A natureza moral e relacional da medicina enquanto encontro interpessoal se perde e os problemas pessoais e sociais mais abrangentes são ignorados, ao mesmo tempo que o custo dos cuidados de saúde e as desigualdades aumentam. A meu ver, estas tendências se mantêm, e até se fortalecem, à medida que vemos a eutanásia ser defendida cada vez mais em público e, ao mesmo tempo, a morte assume um caráter mais “tecnológic”[3]; existe mais pressão sobre os direitos de objeção de consciência dos profissionais de saúde na prática de determinados serviços e também sobre os orçamentos da área da saúde.

Além disso, em grande medida a igreja perdeu sua voz no Ocidente. Ela é vista como uma instituição reacionária por natureza, desesperada por se agarrar ao pouco poder que lhe resta através da interferência ilegítima nas escolhas sexuais e reprodutivas das pessoas, bem como no seu direito de decidir a forma e ocasião da sua própria morte.[4] Tudo isto é lamentável, pois a igreja tem contribuições importantes a dar, desafiando a ideia de que podemos (e devemos) controlar todas as circunstâncias da vida humana, chamando as pessoas ao reconhecimento de que os seres humanos são limitados, finitos, vulneráveis e mortais, e de que as nossas políticas e práticas de saúde necessitam reconhecer estes fatos em vez de procurar escapar às limitações da condição humana. Esta perspectiva acrescentaria humanidade e sustentabilidade à pratica da medicina (e, de forma geral, aos cuidados de saúde).

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A medicina nos países em desenvolvimento

A situação é muito diferente nos países em desenvolvimento.[5] A limitação de recursos nestes ambientes é comum a todos, tal como o são as forças socioeconômicas que contribuem para o fardo global de doenças e que complicam o fornecimento de serviços.[6] Nestes contextos, os problemas que a medicina deve abordar são, em grande parte, determinados por critérios sociais e econômicos. Quando era estudante de medicina na década de 1980, a única pessoa que vi morrer de tuberculose foi num pequeno hospital rural na Índia; de fato, este foi o único paciente que alguma vez vi com um caso grave de tuberculose ativa. .

O papel da igreja nesta área também tem se tornado mais complicado. No passado, os hospitais missionários cristãos poderiam esperar um monopólio real no fornecimento de cuidados de saúde aos pobres.[7] Isto deu origem a algumas oportunidades excelentes para demonstrar a realidade do reino de Deus cuidando dos desfavorecidos e vulneráveis, bem como a ocasiões para uma proclamação eficaz.[8] É evidente que ocorreram muitos abusos e erros de prática, especialmente quando a missão andava de mãos dadas com agendas coloniais, deixando um legado infeliz com o qual temos que lidar hoje. No entanto, também existem legados maravilhosos, em que a igreja é vista como um agente de esperança e transformação e o lugar onde o amor de Deus pode ser encontrado.

Existem ainda muitos lugares onde as pessoas não têm um acesso razoável a cuidados de saúde acessíveis e sustentáveis, um problema que a igreja tem que continuar combatendo tal como já faz há séculos. A igreja também precisa continuar a obra essencial de ajuda e desenvolvimento que irá nutrir o progresso das infra-estruturas e do capital social que permitem uma provisão mais justa e ampla de cuidados médicos significativos. Mais, deverá lidar com a “fuga de cérebros” – a perda de profissionais de saúde competentes e formados dos países em desenvolvimento para o Ocidente, um fenômeno que é um reflexo trágico do fluxo de capitais do Sul para o Norte global, apesar do fluxo de ajuda para o Sul.

Todavia, a perda do monopólio dos serviços de saúde também precisa de ser abordada; não para excluir outros fornecedores dos respectivos contextos, mas para demonstrar, uma vez mais, a contribuição única que a igreja pode oferecer.

Existem diversas maneiras de fazer isto, permitam-me mencionar uma: cuidados paliativos. A necessidade é clara e grande.[9] Se os serviços de cuidados paliativos são incompletos e inadequados no Ocidente (e são), eles são praticamente inexistentes em certos países em desenvolvimento. Existem, claro, muitas histórias tocantes sobre este tipo de cuidado (como os Missionários da caridade em Calcutá). No entanto, é preciso fazer muito mais. A igreja está numa posição sem igual, dada a importância das redes de cuidado e apoio social nos cuidados paliativos de boa qualidade, grande parte dos quais necessita ser feita em contexto de comunidade e não de hospital.

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A medicina nas economias emergentes

A menção da Índia levanta, como seria de esperar, a questão das economias tecnológicas emergentes. A falta de espaço limita os meus comentários sobre o assunto, mas é preciso apontar a prática crescente do turismo médico e os fardos e oportunidades que gera para os sistemas de saúde.[10] Surgem perguntas especialmente delicadas em relação a tratamentos experimentais ou controversos e os problemas de regulação, aprovação ética, etc., associados. A maternidade de substituição comercial é apenas uma das “indústrias”; outras incluem os transplantes (e o cultivo de órgãos) na China, terapias com células estaminais não aprovadas e serviços de fertilização in vitro em geral. É complicado saber qual a resposta concreta que a igreja pode dar a estes desenvolvimentos.

Respostas sugeridas

O mundo da medicina é complexo, e os desafios que a igreja precisa de enfrentar são muitos e muito variados. No Ocidente, precisamos levar em conta como o nosso compromisso com a tecnologia e a escolha individual promove abordagens consumistas pouco saudáveis à medicina, e o que nós, enquanto chamados para a missão de Deus no mundo, podemos fazer e dizer para contrariá-las. Nos países em desenvolvimento, precisamos considerar como a nossa forma de encarnar a paixão de Deus pela justiça e a preocupação com os pobres pode formar comunidades saudáveis, qual o papel que os cuidados médicos devem ter nisso e como navegar o terreno em mudança que são as economias emergentes.

Todos estes desafios exigem que quem pensa acerca de missões e as pratica reflita cuidadosa e teologicamente na natureza e objetivos da medicina, bem como nos contextos variados em que é praticada (consulte as sugestões de leitura adicional abaixo).

É também importante que os líderes cristãos conheçam pessoas de influência nas suas redes que estejam envolvidas com os cuidados de saúde: para as apoiarem na sua missão vital, identificarem as pressões específicas que enfrentam e ajudá-las a pensar teologicamente acerca da prática na área da saúde.

É claro que isto requer que os líderes cristãos possam cuidar pastoralmente dos profissionais de saúde de forma eficaz e disponham de uma teologia pensada com muita reflexão que seja relevante para o setor. Sem toda esta reflexão e uma ação cuidadosa e disciplinada, a teologia e a prática missionárias ficarão mais pobres.

Leituras adicionais

Tentei abordar os problemas teológicos e as suas implicações na prática da medicina no Ocidente e nos países em desenvolvimento na minha obra Vulnerability and Care: Christian Reflections on the Philosophy of Medicine (Londres: Bloomsbury T&T Clark, 2016).

O livro de Neil Messer, Flourishing (Grand Rapids: Eerdmans, 2013) também é de leitura útil, embora discorde dele em alguns assuntos fundamentais.

Também é possível encontrar debates úteis sobre questões bioéticas importantes na obra de John Wyatt, Matters of Life & Death (Nottingham: IVP, 2009).

Estão disponíveis recursos excelentes (e gratuitos) sobre assuntos globais na área da medicina, com especial enfoque na igreja e sua missão, no periódico online de acesso livre Christian Journal for Global Health: http://journal.cjgh.org/index.php/cjgh.

Endnotes

  1. Let me note at the outset that I will not argue for the legitimacy of medicine as a calling and practice or that it is an important expression of and contribution to God’s mission in the world. That will be taken as given, but is clearly justified in the literature. See, for instance, Edmund D. Pellegrino and David C. Thomasma, Helping and Healing: Religious Commitment in Health Care (Washington: Georgetown University Press, 1997); The Christian Virtues in Medical Practice (Washington: Georgetown University Press, 1996); John Wyatt, Matters of Life & Death: Human dilemmas in the light of the Christian faith (Nottingham: IVP, 2009); Neil G. Messer, Flourishing: Health, Disease, and Bioethics in Theological Perspective (Grand Rapids: Eerdmans, 2013).
  2. For more on this, see amongst others, Stanley Hauerwas, Naming the Silences: God, Medicine, and the Problem of Suffering (Grand Rapids: Eerdmans, 1990); Suffering Presence: Theological Reflections on Medicine, the Mentally Handicapped, and the Church (Edinburgh: T&T Clark, 1986); Gerald P. McKenny, To Relieve the Human Condition: Bioethics, Technology, and the Body (Albany: University of New York Press, 1997); Joel Shuman and Brian Volck, Reclaiming the Body: Christians and the Faithful Use of Modern Medicine (Grand Rapids: Brazos, 2006).
  3. For this, see, Jeffrey P. Bishop, The Anticipatory Corpse: Medicine, Power and the Care of the Dying (Notre Dame, IN: UNDP, 2011); Atul Gawande, Being Mortal: Medicine and What Matters in the End (New York: Metropolitan Books, 2014).
  4. There is, unfortunately, a measure of truth in such criticisms. True, many vocal conservative critics of ‘the culture of death’ are deeply (and primarily) concerned about the common good and the dignity and worth of all people, including the most vulnerable. Nonetheless, there is also at least an element of lamenting a lost moral hegemony which renders our other concerns moot. We need to learn new ways of conducting these conversations and ensuring that our concerns are—and are seen to be—broader than the usual ones of sex and the beginning and end of life.
  5. Editor’s Note: See article by Joel Edwards and Goeff Tunnicliffe entitled ‘Micah Challenge International’ in the March 2015 issue of Lausanne Global Analysis.
  6. Andrew Sloane, ‘Love in a time of Ebola – reflections on theology of medicine in resource challenged environments’, Christian Journal for Global Health 3, no. 1 (2016).
  7. Steffen Flessa, ‘Christian milestones in global health: the declarations of Tübingen’, Christian Journal for Global Health 3, no. 1 (2016); ‘Future of Christian health services – an economic perspective’, Christian Journal for Global Health 3, no. 1 (2016). It is worth noting his social and economic arguments for the need for universal healthcare, in addition to the broadly theological and philosophical ones that others and I have developed (for which see Sloane, ‘Love in a time of Ebola’, as above).
  8. Christoffer H. Grundmann, ‘Sent to heal! About the biblical roots, the history, and the legacy of medical missions’, Christian Journal for Global Health 1, no. 1 (2014). I should note my disagreement with his theology of health/medicine; he nonetheless makes some good historical observations.
  9. Worldwide Palliative Care Alliance, ‘Global Atlas of Palliative Care at the End of Life’, (London: WHO, 2014).
  10. Noree, Thinakorn, Johanna Hanefeld, and Richard Smith,’Medical tourism in Thailand: a cross-sectional study’. Bulletin of the World Health Organization 94, no. 1 (2016): 30-36.
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Andrew Sloane é professor universitário de Velho Testamento e Pensamento cristão e diretor de estudos pós-graduados no Morling College, Austrália. Ele se formou como médico antes de iniciar seu ministério e completar sua formação teológica. A sua obra mais recente é Vulnerability and Care: Christian Reflections on the Philosophy of Medicine (Londres: Bloomsbury T&T Clark, 2016).

Traduzido por : Jónatas Pires