O evento que assinalou o lançamento da rede temática Ministério Estudantil Internacional (ISM, do inglês International Student Ministry) no quadro global foi o Fórum Lausanne em 2004, na Tailândia. Aqui, o ministério com as diásporas e com estudantes internacionais foram apresentados como grupos estratégicos de especial interesse para o ministério. O Artigo de Lausanne n.º 55, Diasporas and International Students: The New People Next Door (As diásporas e os estudantes internacionais: os nossos novos vizinhos), elaborado em conjunto pelos grupos de Diásporas e ISM no Fórum, validou o ISM em todo o mundo como uma missão importante e estratégica.[1]

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O primeiro encontro mundial de líderes do ISM decorreu em setembro de 2017, com o nome Lausanne ISM Global Leadership Forum: Charlotte’17, com mais de 100 líderes de 70 organizações e 23 países.[2]

O caminho está agora preparado para que o movimento ISM aprofunde as suas raízes à escala global. É necessário que todos nos envolvamos, pois os estudantes com mobilidade internacional continuam a aumentar, ao passo que o número de obreiros e ministérios direcionados a eles continua a ficar para trás.

Campo missionário em crescimento

Deus está a enviar o campo missionário às nossas universidades sob a forma de cinco milhões de estudantes internacionais atualmente em todo o mundo, número este que aumentará para oito milhões em 2025, segundo as previsões. A Europa e a América do Norte têm sido os principais destinos dos estudantes internacionais nas últimas seis décadas, mas a região da Ásia-Pacífico está a atrair cada vez mais estudantes estrangeiros. Este fenómeno deve-se ao facto de vários países terem alvos nacionais de recrutamento de estudantes lucrativos do estrangeiro. Por exemplo:

  • Austrália: 720 000 estudantes até 2025 (500 000 em 2017)
  • China: 500 000 até 2020 (407 000 em 2015)
  • Malásia: 250 000 estudantes até 2025
  • Taiwan: 130 000 até 2020
  • Japão: 300 000 até 2020 (240 000 em 2016)

Visão estratégica

Ao longo dos 40 anos em que trabalhei como mobilizador da Igreja para o ISM, sempre defendi a necessidade básica de partilhar dois mandamentos bíblicos, praticar a hospitalidade e receber o estrangeiro, e as bênçãos multifacetadas e mútuas existentes no ministério com estudantes internacionais. Porquê? Porque sem visão não há envolvimento.

Tal como Jesus fez com as multidões em Mateus 9:36-38, um pastor ou líder missionário precisa de «ver» a presença providencial dos estudantes internacionais (os futuros influenciadores do mundo) que estudam nas suas universidades, para poder sentir compaixão deles ou ser compelido a estender a hospitalidade de Deus às ovelhas perdidas de muitas nações.[3] Embora a importância estratégica do ISM seja óbvia, as lideranças da igreja e das organizações missionárias têm, muitas vezes, andado alheadas.

Porquê envolver-me com estudantes internacionais?

Em 1975, um antigo estudante internacional proferiu uma mensagem impactante na World Missions Conference (Conferência Mundial de Missões) da Igreja de Park Street, em Boston. Essa mensagem, intitulada «The Great Blind-Spot in Missions Today» (O grande ângulo morto das missões na atualidade), abordava o ministério com estudantes internacionais, e como a igreja muitas vezes não conseguia ver o potencial tremendo para missões mundiais que existia neste segmento.

Oportunidades missionárias

Este ângulo morto tem vindo a diminuir gradualmente nas últimas quatro décadas, à medida que a igreja vem ganhando visão para o desenvolvimento estratégico deste ministério, e aprende a compreender melhor as oportunidades de missão entre estudantes e investigadores internacionais:

  • Estes estudantes já estão nas nossas universidades, comunidades e igrejas; não precisamos de esperar para ir a algum lado, ou para longe, no futuro para participar na Grande Comissão.
  • São suficientemente fluentes na nossa língua para estudar nas nossas escolas, ou poderão estar num instituto de línguas para melhorar o conhecimento do idioma. A oportunidade de praticar o idioma com alguém nativo seria quase sempre apreciada (e mesmo que não precisemos de falar fluentemente a língua deles, eles podem sempre ensinar-nos alguma coisa). As aulas de conversação a título voluntário são um serviço magnífico que constrói naturalmente amizades que levam à partilha da vida e da fé.
  • Estes estudantes, em geral, estão dispostos a aprender sobre a nossa cultura, história e país; podem até querer ter amigos no país de destino que possam ser mentores culturais.
  • Costumam ser mais abertos, curiosos e receptivos a aprender sobre Jesus quando vivem no estrangeiro.
  • Têm mais liberdade para considerar o evangelho se estiverem afastados de uma sociedade e cultura restritivas, e de uma religião hostil ao cristianismo.
  • Por vezes, pertencem a grupos não alcançados em que a igreja ainda não existe ou está ainda na infância.
  • Apreciam a hospitalidade e estão abertos a relacionamentos de interação multicultural, bem como o contexto social intergeracional das famílias de acolhimento, em que crianças mais novas, pais e avós são valorizados em conjunto com os adultos da mesma idade.

Impacto dos estudantes internacionais

Os estudantes internacionais são líderes mundiais em potência (politicamente e nas suas profissões), construtores de nações e agentes transformadores.

Além disso, os cristãos que regressam aos seus países podem desempenhar papéis importantes no estabelecimento da igreja global; muitos dos principais líderes evangélicos recentes na Malásia e em Singapura estudaram na Austrália nas décadas de 1960 e 1970.

John Sung tornou-se cristão nos EUA, na década de 1920, regressando à China como evangelista; o avivamento naquele país espalhou-se como brasas vivas. Bakht Singh, um sikh, foi atraído a Cristo durante uma estada de vários meses para estudar no Reino Unido e no Canadá. Recebeu Cristo e regressou à Índia como evangelista, tal como John Sung na China e na Ásia Oriental: «O modelo de plantação de igrejas inspirado no Novo Testamento de Bakht Singh multiplicou-se para mais de 500 congregações na Índia e 200 no Paquistão, contando ainda algumas na Europa e na América do Norte.’[4]

Informadores e instrutores

Os estudantes internacionais também podem servir de «informadores» e «instrutores» no avanço do movimento missionário. Duas enormes viragens missões, nos séculos XIX e XX, foram desencadeadas pelo papel de informadores de estudantes internacionais:

  • Durante a conferência estudantil de D.L. Moody em Mt. Hermon, no estado do Massachussets (EUA), em 1886, decorreu uma «reunião especial das dez nações». Aqui, estudantes de dez países partilharam brevemente acerca da necessidade de missionários nos seus países. Estas «chamadas para a Macedónia» alimentaram uma resposta que levou à formação, em 1888, do Student Volunteer Movement for Foreign Missions (Movimento Estudantil Voluntário para Missões no Estrangeiro), que enviou mais de 20 500 missionários para o campo.[5]
  • O desenvolvimento do conceito de «povos escondidos/não alcançados» pelo Dr. Ralph D. Winter, associado à tarefa inacabada da evangelização mundial, afetou uma mudança paradigmática na compreensão de missões e no planeamento estratégico.[6] O que contribuiu para a cosmovisão emergente sobre os povos do Dr. Winter? Segundo o que me revelou, na Escola de Missões Mundiais do Seminário Fuller (onde deu aulas), havia «10 alunos e 100 professores». Ele era o aluno que aprendeu sobre crescimento da igreja e evangelismo no meio da diversidade dos subgrupos culturais de todo o mundo: os «100 professores» eram os seus informadores, os estudantes internacionais.

O papel dos estudantes internacionais no avanço da compreensão acerca de missões e das suas necessidades tem sido tremendo. E eles continuarão a ser instrutores valiosos, se estivermos dispostos a ouvi-los e a aprender com eles.

Eles também são dádivas de Deus à nação e à igreja que os acolhe: um seminarista africano foi fundamental na conversão de um sacerdote episcopal nos EUA, que mais tarde se tornou bispo e teve um papel essencial na corrente evangélica da Igreja Episcopal Norte-americana. Essa corrente chegou à nova denominação Igreja Anglicana na América do Norte (ACNA) e, por sua vez, agora existem interesse e movimento significativos entre líderes e missionários anglicanos para desenvolver o ISM na ACNA.

ISM em igrejas locais

As igrejas locais estão a descobrir o quão enriquecedor é ter um ministério com estudantes internacionais:

  • É possível obter benefícios consideráveis e um impacto global significativo com um orçamento modesto para este ministério — o retorno é elevado, mas os custos financeiros são poucos (ou nenhuns).
  • O ISM introduz uma dimensão tangível à visão missionária da igreja, dando opções de envolvimento à congregação que vão além da oração, cuidado e apoio financeiro de missionários e ministérios noutros países.
  • Praticamente todos os membros da igreja, das crianças aos reformados, podem envolver-se nestes ministérios. Aí, usam os seus variados dons para servir: hospitalidade, ajuda, administração, ensino, compaixão, evangelismo, liderança, etc.
  • Os missionários reformados ou que regressam ao seu país estão a alargar o seu serviço missionário transcultural ao trabalharem com estudantes internacionais provenientes do país ou grupo linguístico-cultural que serviram no estrangeiro. No ISM da igreja a que pertenço, temos vários missionários, expatriados e empresários envolvidos com regularidade. Além disso, as agências missionárias podem recomendar ou fazer com que os candidatos participem num ministério destes como uma formação transcultural, permitindo-lhes ganhar experiência antes de irem para o campo.
  • Muitas pessoas que têm o desejo de servir fora do seu país, mas não podem por variadas razões, estão a desenvolver um ministério frutífero com estudantes internacionais do país ou região para a qual pretendiam ir. Passaram a ser missionários globais no seu país, e por vezes nas suas casas.
  • Amigos estudantes internacionais são professores de idioma e cultura convenientes para membros de igreja que participem em projetos missionários de curta ou longa duração, estudem ou trabalhem, ou apenas estejam de visita aos seus países.
  • Os estudantes internacionais poderão revelar-se uma ligação crucial para ministérios ou missões no seu país de origem, pessoalmente após o seu regresso ou através de uma apresentação positiva, e uma recomendação, de missionários à sua família, amigos e contactos. Estes estudantes poderão ser a chave para abrir a porta para estrangeiros envolvidos em ministérios no seu país.

A realidade é esta: a maioria dos cristãos não são «chamados» para servir como missionários profissionais a longo prazo, ou para levantar o seu próprio sustento como fazedores de tendas noutro país. Porém, ficar na nossa terra natal não significa que não nos podemos envolver no ministério transcultural e global. O ISM é uma forma de participar em missões mundiais sem sair de casa.

Implicações e respostas

Qual é o seu contexto ministerial? Quais são os passos seguintes que pode considerar

ao explorar um método para a inclusão do ISM no plano estratégico do seu ministério?

Se a base do seu ministério é uma igreja, existem alguns ISM na sua área com os quais poderia colaborar? Se não é o caso, e há estudantes internacionais na comunidade, talvez os membros possam voluntariar-se para serem «famílias anfitriãs/amigas» através do departamento de estudantes internacionais da universidade local, ou parceiros de conversação num instituto de línguas da zona.

No caso de ministérios já baseados na universidade, de que forma pode o ISM ser promovido e, quem sabe, desenvolvido intencionalmente, nos planos já existentes?

Tratando-se de uma agência missionária, será que o ISM deve ser adotado na formação de missionários antes de partirem para o campo, e também como uma opção de continuidade para missionários regressados e reformados? De que forma podem os estudantes internacionais cristãos contribuir enquanto potenciais informadores, mentores e promotores antes e depois de regressarem a casa?

As perguntas acerca do envolvimento no ministério com estudantes internacionais, recursos e eventos futuros relacionados com este tópico poderão ser enviadas para o Dr. Yaw Perbi, Presidente da International Student Ministries Canadá, e para Emma Brewster, Coordenadora Internacional para a Interação com a Universidade da SIM, os novos co-catalisadores de Lausanne para o ISM, em [email protected], e [email protected] respetivamente.

Notas finais

  1. Nota do editor: É possível fazer o download do PDF em https://www.lausanne.org/content/lop/lop-55.
  2. Nota do editor: Consulte a página https://www.lausanne.org/gatherings/lausanne-ism-global-leadership-forum-charlotte17.
  3. Nota do editor: Ler o artigo «Será que Deus está renovando a Europa através dos refugiados?: transformando a maior crise humanitária da atualidade na maior oportunidade missionária», de Sam George, disponível na edição de maio de 2017 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2017-05-pt-br/sera-que-deus-esta-renovando-a-europa-atraves-dos-refugiados
  4. Jonathan Bonk, ‘Thinking Small: Global Missions and American Churches,’ Missiology (April 2000).
  5. Nota do editor: Consulte o artigo de Allen Yeh, O futuro de missões é de todos para todos os lugares: um olhar sobre a missiologia policêntrica, https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2018-01-pt-br/o-futuro-de-missoes-e-de-todos-para-todos-os-lugares, publicado nesta edição da Análise Global de Lausanne.
  6. Nota do editor: Consulte o artigo de Kent Parks, «Terminando os 29% ainda não alcançados pela evangelização mundial» publicado na edição de maio de 2017 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2017-05-pt-br/terminando-os-29-ainda-nao-alcancados-pela-evangelizacao-mundial.
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Leiton Edward Chinn tem mobilizado a igreja para o ministério estudantil internacional desde 1977 e cumpriu o 10º aniversário como Catalisador de Lausanne para o ISM em 2017. Serviu como Presidente da Association of Christians Ministering among Internationals [estudantes] de 1999 a 2008. Leiton é casado com Lisa Espineli Chinn, antiga Diretora Nacional de ISM da InterVarsity USA, que foi estudante internacional oriunda das Filipinas na Wheaton Graduate School.

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