Noor (os nomes deste artigo foram mudados por motivos de segurança) estava acostumado com uma vida perigosa, após décadas vivendo em uma região altamente volátil que ele chama da “Terra Média” da Ásia central. Agora vive no Canadá com sua esposa e não quer que seus anos de experiência e perspectiva sejam desperdiçados e se “aposentem”. Por que não começar uma nova estratégia para o reino usando o Facebook, algo que seu povo adotado usa bastante?

Agora Noor se encontra novamente nas familiares ruas empoeiradas do bazaar, em uma visita curta, esperando para encontrar pessoalmente o Ahmad, um novo amigo que fez contato através da sua página no Facebook dizendo “Sou como você, vamos nos encontrar!”.

Naturalmente, os dois lados tinham suas suspeitas, mas os riscos óbvios valiam a pena. Não havia dúvidas de que Ahmad sabia que Noor era seguidor de Isa Al Masih e que ele estava usando sua presença online para compartilhar sobre Jesus e seus ensinamentos com membros de um grupo de pessoas que são notoriamente difíceis de se envolver com o evangelho quando ainda estão em seus países, assim como diversos outros vivendo no exterior.

Através de conversas por texto e voz no Facebook Messenger, eles estabeleceram um plano para se encontrarem na loja de Ahmad, localizada em um dos mercados mais conhecidos em toda a nação. Chegou a hora, e Noor facilmente passaria despercebido, de barba e vestimentas tradicionais como os moradores locais enquanto olhava do outro lado da rua para o lugar onde Ahmad combinou de encontra-lo.

“Ahmad?”, ele perguntou no idioma local ao homem na loja pequena e mal iluminada. Um jovem o olhou dos pés à cabeça e respondeu: “Não. Como posso ajudar?”. “Diga para o Ahmad que um cara velho veio dizer oi. O cara que faz o negócio no Facebook.”

Noor então foi embora e não pode deixar de notar que os olhos do assistente acompanhavam cada passo que ele dava. Ele teria sido reconhecido como estrangeiro? O assistente suspeitava das intenções dele com relação ao seu empregador? Seria o estranho simplesmente louco?

Meia hora passou até que Ahmad telefonou com mais instruções. “Vamos nos encontrar na loja de chá; não é bom nos encontrarmos na minha loja.” Os dois então passaram uma hora fascinante, em conversa profunda e espiritual baseada nas Escrituras. Dezoito meses mais tarde, Ahmad começou a testemunhar: “Eu acredito no que você disse sobre Jesus”.

Que alegria é a jornada conjunta de Noor e Ahmad, assim como as centenas de outras pessoas que estão passando pelas mais diversas fases de explorarem as declarações de Jesus. Noor se vê como um simples servo e mensageiro de Deus que arrisca sua vida e está disposto a abrir mão de seu sono e conforto para postar, engajar e eventualmente encontrar as pessoas que demonstram mais interesse nas boas novas e que vivem em fuso horário que não poderia ser mais oposto.[1]

Frustrações e mensagens contraditórias

No entanto, apesar do sucesso que em seu trabalho de evangelização de homens, os esforços de sua esposa em alcançar as mulheres através de uma página que ela preparou estão estagnados. Os regulamentos do Facebook entram em conflito com o desejo e necessidade que Noor tem de não ser completamente aberto sobre sua identidade; mudanças contínuas aos algoritmos e esforços de marketing focado em pessoas que seguem determinadas religiões causam ainda mais confusão nesta arena.

À medida que os nativos digitais entram no ministério no exterior e até mesmo agora que as gerações anteriores se tornam mais familiares com as atividades online, o potencial para encontrar e impactar pessoas por toda a eternidade parece estar valendo o risco.

Além disso, a organização internacional para a qual Noor trabalha tem encorajado seus trabalhadores a saírem das redes sociais e diminuírem sua presença online antes de viajarem ao exterior para evitarem se tornar alvos, já que o trabalho evangelístico poderia levar ao encarceramento, expulsão do país ou até mesmo morte. A organização dele não está sozinha em seu desejo de manter seus trabalhadores seguros, enquanto ao mesmo tempo os encoraja a serem pioneiros em novas formas de trabalhar e a pensarem de forma inusitada para alcançarem as pessoas com o evangelho. Isto acaba causando mensagens contraditórias.

No entanto, parece que a maré está começando a mudar. À medida que os nativos digitais entram no ministério no exterior e até mesmo agora que as gerações anteriores se tornam mais familiares com as atividades online, o potencial para encontrar e impactar pessoas por toda a eternidade parece estar valendo o risco.

Treinamento e instrução básicos

Outro esforço de longo prazo, localizado em um país árabe, também faz uso do Facebook para encontrar “pessoas de paz”. Após a fase inicial de testes, estão refinando o sistema sofisticado de rastreamento e de classificação (utilizando software de gerenciamento de relacionamento com consumidores) com a ajuda de equipes de plantadores de igrejas, cujo único foco era fazer o acompanhamento de pessoas atraídas pelas redes sociais. Eles agora oferecem uma plataforma de treinamento e instrução, em uma tentativa de documentar o que eles aprenderam e ajudar outros a formularem um processo de dez passos para o uso das redes sociais para fomentar o Movimento de Formação de Discípulos.[2]

Snapchat

26%

dos adolescentes sauditas usam Snapchat


1/3

dos usuários globais de internet usa YouTube

Enquanto o Facebook certamente controla a maior fatia do mercado das redes sociais, o Snapchat oferece um perfil atraente para os obreiros que focam na Arábia Saudita e Península Arábica. A região lidera o uso global do aplicativo. Uma pesquisa de 2015 identificou que 26% dos adolescentes sauditas usam o aplicativo.[3] No entanto, ele não é muito usado pelos ministérios online. Com uma reputação mundial de um app para envio de mensagens sexuais (ou “sexting”, em inglês), ele continua a espantar pessoas com mentalidade ministerial.

 A revolução do vídeo

O YouTube é utilizado por pelo menos um terço dos usuários globais de internet. Ele está presente em 88 países e pode ser acessado em 76 idiomas diferentes.[4] O potencial de influência e alcance de qualquer pessoa com um smartphone e um plano de dados é sem precedentes na história humana. Até 2019, o tráfego de vídeos pela internet será responsável por 80% do tráfego de internet por consumidores.[5]

Reconhecendo esta tendência, um projeto de mídia inovador da Caucásia lançou uma série de filmes curtos focando no tema do perdão. Sua estratégia contou com o uso do Facebook e YouTube, com grupos de discussão sobre perdão estrategicamente posicionados. A estratégia também contou com mostras locais de filmes, e mais de 400 pessoas que participaram dos grupos. Os participantes disseram se sentir envolvidos e capacitados a falarem sobre as dificuldade de perdoar, como reconciliar e como encontrar paz com os outros. Destes grupos, quarenta participantes seguiram adiante e se tornaram voluntários do movimento, com uma divisão de aproximadamente 50% de crentes e 50% de pessoas que ainda estão em sua busca, e que agora estão mais perto de conhecer o Príncipe da Paz e o perdão.

Estas estatísticas são estarrecedoras, quando você pensa no potencial bruto de alcançar os que ainda não sabem sobre Jesus ao redor do mundo.[6] EMesmo em áreas remotas offline, os dispositivos móveis se tornaram lugar-comum. No entanto as taxas proibitivas para o uso de dados e problemas de cobertura significam que qualquer estratégia boa deve incluir um componente offline, levando em conta as estratégias de compartilhamento de mídia, inclusive cartões micro SD, bluetooth ou até mesmo roteadores de wifi, prontos para compartilharem conteúdo centrado no evangelho para quem passar por perto.

Onde começar?

Os cristãos envolvidos em esforços de alcance estão certamente começando a reconhecer o potencial da internet, mas muitos simplesmente não sabem como ou por onde começar.[7] É em situações assim em que grupos como o Mobile Ministry Forum[8] podem ajudar. Esta colaboração de praticantes do ministério de diversas agências missionárias preparou diversos guias que podem ser baixados e cursos online acessíveis para ajudar, além de oportunidades para trabalho de campo, se as pessoas souberem a quem perguntar e como procurar por esse apoio.

Muitos ministérios estão começando a reconhecer uma conferência de mídia/missões que acaba de passar por seu sétimo ano. Enquanto os organizadores preferem que a conferência continue anônima ao público, de boca em boca está ficando conhecidos, resultando em 725 participantes de 293 organizações e 63 países em um encontro realizado em abril de 2018.

Em um país do sudeste da Ásia, um grupo local de cristãos vindos de diversas denominações e ministérios foca em encontrar pessoas que reportam terem sonhado com um homem com vestes brancas resplandecentes, um fenômeno que têm sido reportado no mundo muçulmano, no qual Jesus frequentemente aparece e fala com os muçulmanos, lhes dá as Escrituras ou instruções de o que fazer para chegar a Ele. O trabalho deste grupo provavelmente atraiu mais de mil pessoas em busca do evangelho através de algumas campanhas combinadas.

Quando outro obreiro ouviu isso, na conferência de mídia mencionada acima, foi feita uma tentativa de duplicar um projeto semelhante para o público do Oriente Médio. No entanto, a reposta (incluindo as promissoras e não tão promissoras) foi tão esmagadora que o projeto teve que ser suspenso até que no futuro possam estabelecer uma infraestrutura mais robusta, inclusive trabalhando com fiéis locais.

Os estrangeiros em um país anfitrião frequentemente enfrentam dificuldades em responder de forma natural e de acordo com os costumes locais, e frequentemente têm um ponto de vista diferente sobre o estilo de mídia local e os gostos locais. Em locais sensíveis, a população local que pode ser incluída nestes esforços de evangelização acaba sendo muito melhor em determinar quem está seriamente buscando e quem pode ser uma ameaça.

É importante reconhecer que a estratégia de evangelização através de redes sociais não é “tamanho único”. O que funciona em um lugar, pode facilmente falhar em outro. Os hábitos locais de consumo de mídia precisam ser estudados tanto quanto possível.

Hábitos locais de mídia

É importante reconhecer que a estratégia de evangelização através de redes sociais não é “tamanho único”. O que funciona em um lugar, pode facilmente falhar em outro. Os hábitos locais de consumo de mídia precisam ser estudados tanto quanto possível. É válido focar em um “informativo de mídia digital” ou “avaliação de uso de celular” explorando fatores como uso de internet, os aplicativos mais baixados por país e canais de redes sociais e de mensagens mais populares, isto ajudará a reconhecer as plataformas que precisam de mais foco. Juntamente com observações de amigos locais, será mais fácil determinar os caminhos mais vantajosos a serem seguidos.

Aplicativos de mensagens como o WhatsApp, Messenger, WeChat, Line e outros continuam em um limbo entre rede social ou aplicativo de mensagens, não há registros dos números de grupos que surgem diariamente que encorajam uns aos outros na Palavra, até mesmo em lugares onde o evangelho não pode legalmente ser compartilhado. A igreja persa está explodindo dentro das fronteiras do Irã, graças em parte ao aplicativo Telegram e o uso difuso de Redes Virtuais Privadas (VPNs, em inglês) com o objetivo de ocultar as atividades online do olhar curioso do governo. Certamente será interessante ver como a comunidade cristã de lá lidará com a interdição oficial pelo governo do Telegram (o ministro de telecomunicações citou que 40 milhões de iranianos usam o aplicativo, ou seja, metade da população). Sempre parece haver um jeito de dar uma volta pelas proibições.

À medida que aumenta o uso de redes sociais especialmente nos países em desenvolvimento, muitos nos países desenvolvidos estão cada vez mais desiludidos. Algumas pessoas estão convencidas de que nada bom pode vir do uso das redes sociais, baseados na divisão que elas geram, especialmente com as diferenças políticas que têm surgido mais recentemente. Enquanto o Facebook tem um potencial sem precedentes para juntar pessoais, ideias e grupos, da mesma forma consegue virar uma palanque que raramente muda a opinião de alguém.

Deus está trabalhando, e trabalhando através da tecnologia que o homem inventa e que, às vezes, o faz tropeçar.

No entanto, Deus está trabalhando, e trabalhando através da tecnologia que o homem inventa e que, às vezes, o faz tropeçar. Como evangélicos ao redor do mundo, minha esperança é que possamos trabalhar para redimir mais deste espaço digital. Resultados do reino estão somente começando a se evidenciar aqui na terra. Nesta vida, não saberemos o verdadeiro impacto, e considerando o ritmo da tecnologia, este artigo ficara antiquado em breve à medida que os seguidores de Jesus continuarem a experimentarem as ferramentas modernas à sua disposição.

Notas Finais

  1. Email [email protected] for more details on this.
  2. See http://kingdom.training.
  3. See http://www.arabnews.com/saudi-arabia/news/835236.
  4. See https://www.youtube.com/yt/about/press/.
  5. See https://marketinghy.com/2017/09/video-marketing-stats-every-business-know-2018/.
  6. Nota do Editor: Leia o artigo de Kent Parks: “Terminando os 29% ainda não alcançados pela evangelização mundial”, da edição de maio de 2017 da Análise Global de Lausanne  https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2017-05-pt-br/terminando-os-29-ainda-nao-alcancados-pela-evangelizacao-mundial
  7. Nota do Editor: Leia o artigo de Lars Dahle: “Media Engagement” (“Envolvimento com a mídia”, disponível em inglês) na edição de janeiro de 2014 da Análise Global de Lausanne  https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2014-01-pt-br/o-engajamento-dos-meios-de-comunicacao-2
  8. mobileministryforum.org.
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Tim C é o fundador de um grupo de relacionamento independente de profissionais de mídia com o coração focado em ministério no exterior. Ele passou mais de uma década trabalhando na África subsaariana envolvido em produção de mídia e desenvolvimento espiritual e de comunidades dentro de comunidades muçulmanas. Agora ele está baseado na costa do Pacífico no Nordeste dos Estados Unidos.