Frequentemente usamos expressões ou palavras sem uma compreensão clara de seus significados e implicações. Há alguns anos, perguntei a 50 indivíduos o significado da palavra “esperança”. Recebi 50 explicações diferentes.

Mais recentemente perguntei a mais de uma dúzia de pessoas sua definição do termo “corrupção”. Novamente, recebi uma grande variedade de respostas. O termo é definido pelo dicionário Webster como: “subornar”, “estragar”, “deteriorado moralmente, “pervertido”, “mau”, “maligno”. São termos perturbadores. No entanto, nos tornamos imunes a eles pois os ouvimos quase diariamente na mídia sobre os escândalos e esquemas financeiros envolvendo oficiais do governo, empresas e indivíduos. Nossa tendência é perguntar “E daí?”.

“Estima-se que 50 bilhões de dólares por ano sejam roubados do dinheiro que cristãos doam para igrejas, organizações para-eclesiásticas e organizações seculares ao redor do mundo.”

Corrupção em organizações cristãs

Quando ouvimos sobre corrupções e escândalos dentro de denominações cristãs, organizações para-eclesiásticas, ou até em igrejas locais, rapidamente verificamos o texto para ver se encontramos nomes que reconhecemos. Mesmo assim, o efeito que isso tem sobre nós é mínimo. Martin Allaby, uma figura proeminente do Desafio Miquéias, escreve: “Estima-se que 50 bilhões de dólares por ano sejam roubados do dinheiro que cristãos doam para igrejas, organizações para-eclesiásticas e organizações seculares ao redor do mundo.”[1] Vemos essa situação terrível como sendo errada, mas consideramos que é além de nosso controle. Acabamos não fazendo nada e aceitamos a situação.

Exemplos de respostas

No entanto, algumas pessoas investiram tempo, energia e dinheiro para fazer algo sobre o assunto:[2]


Bribery and Corruption
por Thomas Schirrmacher


Corruption Mocking at Justice
por Alfred Sebahene


Bribery and Corruption: Biblical Reflections and Case Studies for the Marketplace in Asia
por Bishop Hwa Yung


Examining How I Live
por Dallas Theological Seminary

  • Na Índia, alguns empreendedores confrontaram os líderes das igrejas envolvidas em corrupção e os desafiaram a mudar. Os líderes das principais denominações foram convidados para uma conferência sobre “Verdade e Honestidade”. Eles se chocaram ao ouvir o palestrante falar “Prezados presidentes, bispos, arcebispos e patriarcas, o mal está em vocês! Vocês estão envolvidos com corrupção, suborno, enriquecimento pessoal e com a maldade!” O Espírito Santo tocou diversos dos presentes e foram feitas confissões públicas e correções radicais. Arpit Waghmare lidera a Operação Neemias, o movimento que surgiu no congresso.[3][4]
  • Na Alemanha, uma equipe de pai e filho fizeram pesquisas sobre a corrupção no governo, negócios, igrejas e indivíduos envolvidos com essas organizações. Ficaram chocados com suas descobertas. Thomas Schirrmacher, teólogo sênior, e seu filho David, jovem empreendedor, publicaram suas descobertas em um livro.[5]
  • Na Tanzânia, um estudante de teologia escolheu o tema: “A corrupção caçoando da justiça” para sua dissertação. Afred Sebahene investigou a igreja Anglicana em seu próprio país.[6] Gershon Mwiti também lida com a corrupção na África e como a dignidade e integridade podem tomar o lugar da corrupção.[7]
  • O Desafio Miquéias[8], foi iniciado alguns anos atrás por um grupo de indivíduos, o desafio lida com a corrupção e como introduzir a transparência e honestidade.[9] Outras organizações similares incluem a Transparency International,[10] Faith and Public Integrity Network,[11] e Fides que equipam líderes cristãos e igrejas para lutarem contra a corrupção.[12]
  • O bispo Hwa Yung (Malásia), que durante vários anos foi membro do Comitê de Lausanne, publicou um livro: “Bribery and Corruption: Biblical Reflections and Case Studies for the Marketplace in Asia (“Suborno e corrupção: reflexões bíblicas e estudos de caso no mercado asiático”, em tradução livre) e convidou diversos outros líderes asiáticos a escreverem uma resposta e enviarem estudos de caso de seus próprios países.[13]
  • O corpo docente da Dallas Theological Seminary desenvolveu um guia de estudos para oficinas sobre integridade: Examining How I Live (“Examinando como vivo”, em tradução livre). O livro pode ser usado por qualquer grupo de acadêmicos, pastores, estudantes ou leigos que desejam examinar suas próprias vidas.[14]
  • A liderança do Terceiro Congresso de Lausanne sobre Evangelização Mundial que ocorreu na Cidade do Cabo em 2010 reconheceu a necessidade de prestar atenção em especial à questão de corrupção e integridade. Com esses objetivos em mente, Chris Write escreveu sobre a questão em: “Chamar a igreja de Cristo de volta à humildade, integridade e simplicidade” [15] além disso, o capítulo IIE do Compromisso da Cidade do Cabo também aborda o tema.[16] Uma rede global de “Integridade e Anticorrupção” também foi estabelecida. Este é um esforço conjunto da Aliança Evangélica Mundial (AEM) e do Movimento de Lausanne, liderado por Efraim Tendero (Filipinas) e Manfred Kohl (Canadá). Qualquer interessado pode se tornar membro do grupo.

O testemunho arrebatador da Bíblia é que o maior problema para Deus em sua missão de redenção do mundo é o seu próprio povo.

Um autoexame

Como seguidores de Cristo, não podemos simplesmente aceitar a realidade da corrupção no mundo. Precisamos nos preocupar com isso. Somos chamados a sermos a luz do mundo (Mt 5:14), e há muitas formas para combatermos a corrupção. No entanto, existe o outro lado da moeda: precisamos nos auto examinar. A corrupção é simplesmente um reflexo da falta de integridade.[17]

Integridade é outro termo que usamos frequentemente sem perceber suas implicações. É definido como: “honesto”, “retidão”, “solidez”, “completude”, “plenitude”, “incorruptível”. O evangelista Billy Graham, cofundador do Movimento de Lausanne em 1974, disse: “Quando falamos de integridade como um valor moral, significa que a pessoa é a mesma por fora e por dentro. Não há discrepância entre o que ela diz e como ela age, entre seu falar e seu caminhar.”[18] Chris Wright, em sua apresentação na Cidade do Cabo, disse:

O testemunho arrebatador da Bíblia é que o maior problema para Deus em sua missão de redenção do mundo é o seu próprio povo. O que mais machuca a Deus, parece que não é somente o pecado do mundo, mas o falhar, desobediência e rebelião das pessoas que Ele redimiu e que chamou de seu povo, seu povo santo e separado. . .  Temos que lidar com:

Os ídolos do poder e orgulho,

Os ídolos da popularidade e sucesso

Os ídolos da riqueza e ganância.[19]

O próprio Jesus foi tentado nessas três áreas e resistiu à tentação (Mt 4:1-11). Com a ajuda de nosso Senhor Jesus Cristo podemos nos distanciar dos ídolos que nos tentam às vezes diariamente.

Em 2017, celebramos o 500º aniversário do começo da reforma protestante.[20] A liderança de Lausanne se encontrou em Wittenberg, na Alemanha, para celebrar. O termo “reforma” se refere à mais do que somente o início do protestantismo; deveríamos reconhecer que também significa “uma reforma”, remover o falso, os defeitos, o abuso; recusar suborno; acabar com a corrupção e maldade. É uma batalha sem fim. Hoje queremos ser um povo de reforma constante.

Para Jerald Daffee, a integridade é o elemento que integra, que unifica o caráter, a conduta, e o estilo de vida como um todo. Para ele, uma simples definição é:

Integridade é jogar de acordo com as regras.

Integridade é jogar de acordo com as regras quando ninguém mais está fazendo isso.

Integridade é jogar de acordo com as regras mesmo quando você está jogando sozinho.

Os melhores exemplos são Jó (Jó 6:29; 27:5), José (Gn 39) e Davi (Os 25:21; 41:12).[21]

Exemplos negativos

Todos podem listar diversos exemplos de falta de integridade em indivíduos. Considere os seguintes exemplos, que eu vi pessoalmente:

  • Após um culto de louvor, um bom amigo compartilhou comigo que ele acabara de conseguir seu emprego dos sonhos, através dos esforços de um familiar rico e de influência, apesar de haver muitos outros entrevistados com qualificações melhores.
  • Um empresário recusou um contrato lucrativo com o governo, porque não estava disposto a pagar uma propina grande. Outro empresário, membro e presbítero de uma igreja, recebeu o mesmo contrato, porque para ele pagar propinas é parte do negócio.
  • Um grupo de mulheres da igreja é veementemente contra o aborto. No entanto, nenhuma das senhoras distribui informações sobre as realidades do aborto ou expõe os políticos ou organizações que o apoiam.
  • Diversas vezes vi que ter excelência é confundido com obter sucesso a qualquer custo. Trapacear, falar meias-verdades e até roubar é aceito como normal, desde que a pessoa tenha sucesso.
  • Em viagens internacionais, frequentemente ouvimos a desculpa da ‘cultura’ para a prática de corrupção, até mesmo de cristãos comprometidos. Para um cristão, a Palavra de Deus deve estar acima da cultura.[22]
  • Meu sobrinho é um policial. É uma tentação pedir que ele ignore minhas violações do código de trânsito.
  • Para ser sincero, ouvimos o que queremos ouvir, vemos o que queremos ver e fazemos o que queremos fazer, mesmo se for contrário às Escrituras ou se ouvimos a voz de Deus em nossas consciências. Precisamos de ajuda.

Para combater a corrupção e ter integridade, precisamos começar com as condições de nossas vidas

Desafio pessoal

Para combater a corrupção e ter integridade, precisamos começar com as condições de nossas vidas. Eu me esforço para praticar a integridade, para ser aberto/a à reforma de Deus, para me tornar mais santo/a? Condenar os grandes escândalos de corrupção ou indivíduos que buscam o poder não é o suficiente. Precisamos também nos auto examinar.


Taming the Beast
por Robert Osburn, Jr.

Robert Osburn Jr. conclui seu mais recente livro, Taming the Beast (“Amansando a Fera”, em tradução livre), com o parágrafo das bem-aventuranças (Mt 5:2-11):

  • “Se você está sofrendo com pobreza, a riqueza corrupta é infinitamente inferior à vida sob o reinado eterno de Deus (v. 3: Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus).
  • Se for necessário que você sofra prejuízo durante sua busca por uma vida honesta, seu sofrimento será sempre confortado pela amizade encorajadora das pessoas que você tratou com bondade e honestidade (v. 4: Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados).
  • Apesar de ter o poder para manipular as pessoas com seu dinheiro, é muito melhor restringir o uso do seu poder (“humilde”) para o bem dos outros; como resultado as pessoas irão exigir que você se torne seu líder (“receberão a terra por herança”) (v. 5: Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança).
  • A corrupção e ganância nunca se satisfazem, mas o profundo desejo pela justiça e santidade sempre se satisfaz, dia após dia (v. 6: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.)
  • Em vez de exigir propinas, mostrar misericórdia e bondade às pessoas faz com que elas queiram cobrir-lo com misericórdia e bondade (v. 7: Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia).
  • Os que não são corruptos não têm nada a esconder, nunca temerão os outros nem terão medo da face de Deus (v. 8: Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus).
  • Os que ajudam as pessoas a se reconciliarem umas com as outras obterão riqueza além do que podem imaginar, pois como filhos e filhas de Deus herdarão a riqueza de seu reino (v. 9: Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus).
  • Se durante sua busca pela santidade os corruptos fizerem sua vida miserável, lembre-se que o que os pobres bem sabem: nada se compara com as glórias de viver sob o reinado de Deus (v. 10: Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus).
  • Se você for atacado sem misericórdia por viver uma vida honesta e pura, alegre-se em saber duas coisas: 1) Os profetas do Velho Testamento sofreram de forma semelhante, e isso significa que você está em boa companhia; e 2) Você terá uma recompensa maior do que o líder corrupto mais rico possa imaginar (vs. 11-12: Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês).”[23]

Nota

A Rede de Integridade e Anticorrupção de Lausanne e da AEM gostaria que as pessoas interessadas se juntassem à eles. Escreva para Manfred W. Kohl [email protected]. No dia 24 de junho de 2019, haverá uma grande conferência sobre integridade e anticorrupção em Manila, nas Filipinas. A conferência será perto do local do Fórum Mundial do Trabalho. Todos estão convidados para participar. Envie um e-mail para Third Fermin [email protected].

Endnotes

    1. Martin Allaby, Corruption and the Church – A Brief Introduction (Milton Keynes, UK: im:press an imprint of Micah Global, 2018), 20. Allaby also wrote Inequality, Corruption and the Church – Challenges and Opportunities in the Global Church, (Eugene, OR, USA: Wipf and Stock, 2013) and Corruption and the Church – Voices from the Global South (Oxford, UK: Regnum, 2018). See also Richard King, Confronting Corruption: Letting the Bible Speak (Oxford, UK: Regnum, n.d.).
    2. Nota do Editor: Leia o artigo de David Bennett: “Integrity, the Lausanne Movement, and a Malaysian Daniel”, (disponível somente em inglês) , na edição de janeiro de 2015 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/content/lga/2015-01/integrity-the-lausanne-movement-and-a-malaysian-daniel.
    3. O movimento ajuda denominações e ministérios na Índia a lidarem com corrupção financeira. Você pode assistir sua apresentação “Integrity and Anti-Corruption Case Study” (somente em inglês) online em http://www.lausanne.org/content/integrity-and-anti-corruption-case-study-lausanne-global-leadership-forum ou [email protected]
    4. Nota do Editor: Leia o artigo de Arpit Waghmare: “Choosing to be Salt & Light” (disponível somente em inglês) , na edição de novembro de 2012 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/content/lga/2012-11/choosing-to-be-salt-light-can-the-church-in-india-become-a-model-in-the-fight-for-anti-corruption.
    5. Thomas Schirrmacher und David Schirrmacher, Korruption – Wenn Eigennutz vor Gemeinwohl steht (Holzgerlingen, Germany: SCM-Verlag, 2014). They were not afraid to report in detail, naming names, exposing evil. The book includes ten pages of excellent references.
    6. Alfred Sebahene, Corruption Mocking at Justice: A Theological and Ethical Perspective on Public Life in Tanzania and Its Implications for the Anglican Church of Tanzania (Carlisle, UK: Langham, 2017). It would be a great advantage if many students would focus their research and dissertations on similar topics of integrity, bribery, and corruption.
    7. Gershon Mwiti, The Incorruptible: Leading with Integrity and Dignity (Nairobi, Kenya: Nairobi Academic Press, 2016).
    8. Nota do Editor: Leia o artigo de Joel Edwards e Geoff Tunnicliffe, chamado, “Micah Challenge International” (disponível somente em inglês e espanhol) , na edição de março de 2015 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/content/lga/2015-03/micah-challenge-international.
    9. www.micahnetwork.org/about-micah-challenge
    10. www.transparency.org/research/cpi
    11. https://fpinetwork.wordpress.com, and http://www.ocms.ac.uk/fpin
    12. www.fides-intl.org
    13. Hwa Yung, Bribery and Corruption: Biblical Reflections and Case Studies for the Marketplace in Asia (Singapore: Graceworks, 2010).
    14. Center for Christian Leadership at Dallas Theological Seminary, Integrity: Examining How I Live (Colorado Springs, CO, USA: Navpress, 2004).
    15. Christ Wright, ‘Calling the church back to Humility, Integrity, Simplicity’, in Julia E.M. Cameron (Ed.), Christ Our Reconciler: Gospel, Church, World. The Third Lausanne Congress on World Evangelization (Downers Grove, IL, USA: IVP, 2012), 149-58.
    16. Rose Dowsett, The Cape Town Commitment: Confession of Faith and Call to Action (Peabody, MA, USA: Hendrickson, 2012), Study edition, 119-31.
    17. Editor’s Note: See article by Kelly and Michèle O’Donnell, entitled, ‘A Summons to a Global Integrity Movement’, in March 2018 issue of Lausanne Global Analysis https://www.lausanne.org/content/lga/2018-03/summons-global-integrity-movement.
    18. Mwiti, 252.
    19. Wright, 150-53.
    20. Editor’s Note: See article by Thomas Albert Howard, entitled, ‘Um Chamado pela União Cristã pela grande Comissão’, in November 2017 issue of Lausanne Global Analysis https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2017-11-pt-br/um-chamado-pela-uniao-crista-pela-grande-comissao.
    21. Jerald Daffee, ‘Integrity: A Foundational Principle’ in Donald S. Aultman (Ed.), Leading With Integrity (Cleveland, TN, USA: Church of God, 2004), 77-8 (71-80).
    22. God’s Word is above cultural practices. Excellent material on this subject is given by Roberto Laver, ‘Systemic Corruption: Considering Its Cultural Drivers in Second-Generation Reforms’, Edmund J. Safra Center for Ethics Working Papers 45 (Cambridge, MA, USA: Harvard University, June 5, 2014) www.ethics.harvard.edu/lab All 45 working papers on corruption and integrity are available as electronic copies.
    23. Robert Osburn Jr., Taming The Beast: Can We Bridle The Culture Of Corruption? (St. Paull, MN, USA: Wilberforce, 2016), 225-26.
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Manfred W. Kohl serviu como pastor, professor e fundador da Visão Mundial no oeste da África e Europa central, e como vice-presidente e embaixador da Overseas Council International. Ele faz parte do Movimento de Lausanne desde seu início em 1974.