No mundo ocidental, crianças e jovens vivem cada vez mais no mundo digital, rodeados por dispositivos e histórias do mundo dos média com um grande papel nas suas vidas.[1]

Talvez o cinema forneça aos jovens de hoje mais ideias religiosas do que a igreja

A influência dos média em ideias e valores religiosos

A socióloga sueca Mia Lövheim observa que «no contacto com ideias e valores religiosos, os média são uma arena mais frequente do que a família e amigos»[2] Talvez o cinema forneça aos jovens de hoje mais ideias religiosas do que a igreja; afinal, ambos são lugares de reflexão espiritual que apresentam valores e histórias com uma mensagem subjacente.[3] Estas histórias têm um impacto na geração mais nova e na formação da sua visão do mundo.

A Disney e a sua influência global

Walter Elias Disney (1901–1966) era um produtor cinematográfico que desejava tanto entreter como comunicar uma mensagem.[4] O universo Disney criado por ele é global, um mundo de fantasia que «entretém e educa crianças nos EUA e por todo o mundo».[5] O termo «universo Disney» reflete a universalidade dos produtos Disney e o conceito de um universo de fantasia que teve um efeito significativo na visão do mundo da geração mais nova de hoje.[6] Uma das argumentistas da Disney, Linda Woolverton, disse: «Quando aceitamos o projeto de um filme animado da Disney, sabemos que vamos afetar gerações inteiras de mentes humanas».[7] Assim, The Walt Disney Company está bem consciente da sua influência através de mensagens muitas vezes escondidas por detrás da fantasia e magia.

Embora a Disney tenha um grande papel nas vidas da geração mais nova, a sua influência não se confina ao mundo ocidental em que o universo Disney foi criado. Em quase todo o lado podem ser encontrados filmes e produtos com personagens Disney.

Cristãos de todo o mundo podem utilizar as suas histórias ao comunicar com crianças e jovens acerca de religião e valores fundamentais

Aprendizagens para a igreja

Uma vez que a marca da Disney está presente a nível global, cristãos de todo o mundo podem utilizar as suas histórias ao comunicar com crianças e jovens acerca de religião e valores fundamentais. A Disney tem influência mundial, e muitas vezes as suas histórias refletem valores encontrados ou importados da sociedade ocidental, tais como o individualismo. Familiarizando-nos com os valores apresentados no universo Disney, a igreja global também pode perceber melhor o quadro de referência a que as crianças são expostas noutras histórias nos média. Perante uma sociedade cada vez mais digital, a igreja global vê-se a braços com o desafio de estar onde os jovens estão, no seu mundo saturado pelos média. Para descobrir o que os influencia de forma positiva ou negativa, podemos estudar as visões do mundo representadas nesse meio.

A minha análise de Moana, um filme relativamente recente, mostra traços de dois aspetos importantes das visões do mundo contemporâneas: individualismo e espiritualidade. Comparei também as minhas conclusões com uma análise de Margunn S. Dahle de filmes da Disney mais antigos.[8]

Individualismo

Ao ver a Moana e outros filmes clássicos da Disney, encontrei vários elementos de individualismo que refletem fortemente a sociedade ocidental pós-moderna. O filme acerca da heroína Moana foca-se na sua necessidade de pertencer a algum lugar, enquanto ela procura o seu lugar e papel na vida. Isto é fácil de ver em outros clássicos da Disney, como Hércules, Mulan e O Rei Leão:

  • Um aspeto positivo é que os heróis da Disney tomam muita responsabilidade e são corajosos na sua jornada para encontrar significado na sua vida.
  • No entanto, a sua procura por identidade encontra-se frequentemente em conflito com valores de família e comunidade.

Para a heroína Moana, as tradições do povo dela são muito importantes. Por isso, vivendo na ilha de Motonui, Moana tenta fazer o que é esperado dela, tal como a heroína chinesa Mulan. Contudo, ambas acabam por ir contra os desejos e expectativas das suas famílias quando fogem de casa para «seguir o seu coração».

Este elemento de individualismo encontra-se em vários filmes da Disney, em que o tema central da história é o romper com as expectativas tradicionais e «seguir o coração», em vez de aceitar decisões tomadas pelos pais ou comunidade alargada.

Espiritualidade

Vários clássicos da Disney, além da Moana, têm elementos inerentes de espiritualidade. A Moana  apresenta a reincarnação como uma realidade espiritual e os antepassados de Moana como estando presentes na natureza, rodeando-a. O panteísmo (espíritos na natureza) e uma abertura à religiosidade popular estão presentes em muitos clássicos da Disney pós-1989. Por exemplo, O Rei Leão(1994) apresenta a noção africana dos «mortos vivos», enquanto a heroína em Pocahontas (1995) comunica com os espíritos de acordo com a religião nativo-americana. Um aspeto positivo é que isto permite à juventude cristã aprender acerca de diferentes visões do mundo e religiosidade popular; no entanto, para aprender com isto, temos de reconhecer que estas mensagens vão contra uma visão do mundo cristã.

Muitos filmes da Disney misturam ensino judaico-cristão com outros elementos religiosos e espiritualidade.

Muitos filmes da Disney misturam ensino judaico-cristão com outros elementos religiosos e espiritualidade, e depois acrescentam «alguma magia no fim» como o caminho para tornar os nossos sonhos realidade. Em Moana, a magia acontece através de uma visão do mundo panteísta. O oceano chama Moana, e os seus antepassados reencarnados (especialmente a sua avó) para a ajudar a alcançar o seu sonho. O individualismo também se encontra no foco sobre a espiritualidade interior de Moana — a chamada que ela sente da voz no seu coração.

Como interagimos?

Ao examinar visões do mundo típicas do universo da Disney, e ao refletir sobre o mundo em que vivemos, podemos compreender as mensagens pelas quais a nossa juventude é influenciada no seu dia-a-dia. No ministério de jovens e crianças, podemos procurar formas de confrontar o espírito de ‘eu primeiro’ desta era e cimentar os bons valores que coincidem com a fé cristã.[9] O universo Disney influencia a geração mais jovem de formas positivas e negativas. Para lhes apresentar uma imagem equilibrada, precisamos de realçar os pontos de concordância e discordância entre a fé cristã e o universo Disney.

Elementos de concordância e discordância

Ao examinar os aspetos positivos do universo Disney que poderão concordar com a fé cristã, vemos que, dentro do individualismo apresentado, estão valores como querer atingir os nossos objetivos e ser-se forte e corajoso. A Disney também ressalta a importância de aceitar responsabilidade e a busca por significado na vida.

Ser-se forte e corajoso e assumir responsabilidade são tudo valores cristãos que apoiamos no universo Disney. As questões existenciais acerca de onde pertencemos e o significado da vida também são abordados tanto na fé cristã como nos filmes da Disney. Estes pontos de contacto dão material ao líder de jovens ou pai que pode comunicar com a geração mais nova sobre a sua identidade e o alcançar de objetivos.

Elementos típicos de discordância entre os dois encontram-se no individualismo, uma vez que os heróis/heroínas frequentemente se opõem aos pais e seguem a sua vontade. A sua busca de significado na vida leva-os a porem-se e às suas ambições em primeiro lugar. Isto cria oportunidades para discutir com jovens como um cristão deve pensar acerca da sua própria vontade e ambições em relação aos interesses dos outros.

Também encontramos panteísmo e reencarnação no universo Disney, elementos que contradizem a fé cristã. A espiritualidade que se foca em antepassados e espíritos na natureza, e dentro de nós próprios, pode ser abordada em diálogo com a geração mais nova para criar consciencialização, bem como inspirar reflexão acerca de como estes elementos contradizem a mensagem bíblica.

Se ouvirmos e aprendermos com o mundo dos média à sua volta, podemos transmitir-lhes a mensagem do evangelho através das semelhanças e diferenças entre a fé cristã e esse mundo.

Dupla escuta

Nas nossas relações com os membros da geração mais nova, queremos oferecer-lhes amizade, ajudá-los a crescer na sua fé e encorajá-los a espalhar o evangelho junto de não-cristãos.[10] Se ouvirmos e aprendermos com o mundo dos média à sua volta, podemos transmitir-lhes a mensagem do evangelho através das semelhanças e diferenças entre a fé cristã e esse mundo.

Esta abordagem envolve o princípio de «dupla escuta» — ouvir tanto a Palavra de Deus como o mundo à nossa volta, à procura da concordância e discordância entre as duas mensagens.[11] Significa tentar compreender e obedecer à Palavra de Deus, e ao mesmo tempo compreender o mundo em que vivemos, para ver como o evangelho se poderá relacionar com a sociedade.

Os líderes de igreja, pais e líderes de jovens — na verdade, todos os cristãos — deveriam ser encorajados a praticar este princípio. Ele ajuda-nos a examinar as mensagens que recebemos e encoraja a geração mais nova a manter-se consciente na sua vida digital. Deveríamos ver filmes com crianças e jovens, conhecendo o que o seu mundo dos média contém, e falar disso com uma mente aberta.

Se como igreja global pudermos apontar para Jesus através das diferentes mensagens que a geração mais nova recebe, o processo irá mostrar-nos e a eles a natureza de amor e altruísmo do nosso Senhor, que com coragem sacrificou a sua própria felicidade para realizar o sonho da humanidade — viver feliz para sempre.

Notas finais

  1. Margunn Serigstad Dahle, ‘Worldview Formation and the Disney Universe: A Case Study on Media Engagement in Youth Ministry’, Journal of Youth and Theology 1 (16), 2017: 62.
  2. Mia Lövheim, ‘Religious Socialization in a Media Age’, Nordic Journal of Religion and Society 2 (25), 2012: 151.
  3. Nick Pollard, ‘Philosophical Investigation’, Damaris Skole Vgs, 2018, https://damaris-skole-vgs.no/wp-content/uploads/2018/05/Philosophical-investigation-Nick-Pollard.pdf.
  4. Mark I. Pinsky, The Gospel According to Disney: Faith, Trust, and Pixie Dust (Louisville, KY: Westminster John Knox Press, 2004), 2. Gunnar Strøm, ‘Walt Disney’, Store norske leksikon, 2017, http://snl.no/Walt_Disney.
  5. Pinsky, The Gospel According to Disney, 3.
  6. Janet Wasko, Understanding Disney: The Manufacture of Fantasy (Cambridge, UK: Malden, MA: Polity, 2013), 3.
  7. Quoted in Annalee R. Ward, Mouse Morality: The Rhetoric of Disney Animated Film (Austin, TX: University of Texas Press, 2002), 113.
  8. Dahle, ‘Worldview Formation and the Disney Universe,’ 60–80.
  9. D. Kinnaman, ‘What’s next for Youth Ministry?’, in The State of Youth Ministry (The Barna Group, 2016) 85-87.
  10. Nota do editor: Ver artigo de Ben Pierce intitulado ‘Connecting with the New Global Youth Culture’, na edição de março de 2019 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2019-03-pt-br/jesus-no-mundo-secular
  11. Veja John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo: como ser um cristão contemporâneo (São Paulo: ABU Editora, 2005).
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Tonje Belibi é Professor Assistente na Fjellhaug International University College na Noruega, onde recebeu o seu mestrado em Teologia e Missões. A sua tese de mestrado intitula-se «Educação de fé relevante para tweens numa era multimédia: O filme “Moana”, da Disney, como caso de estudo».

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