No dia 24 de novembro de 2019, os eleitores de Hong Kong foram às urnas em números recordes e produziram uma derrocada que virou o cenário político de ponta cabeça. Da população de 7,5 milhões, 71% dos 4 milhões de eleitores registrados votaram nas eleições municipais. Apesar de o voto popular mostrar uma divisão de 60/40 em favor dos pan-democratas, eles capturaram 85% dos cargos nas câmaras municipais. A derrota dos candidatos pró-estabelecimento denuncia em alto e bom som que o governo que está sob cerco. De fato, Hong Kong é uma cidade em estado de sítio já faz meio ano.

Desde junho de 2019, a cidade está em um estado de instabilidade. A cada final de semana, às vezes também durante a semana, são feitas manifestações e marchas que muitas vezes se tornam violentas. O que começou como um protesto contra os esforços do governo em aprovar uma emendat[1] no Decreto de Infratores Fugitivos se tornou uma grande demonstração do descontentamento com os problemas socioeconômicos enraizados na cidade, logo se tornou em um sentimento anti-China disseminado.

Entre o medo e esperança

The proposed legislative amendment was quickly criticized as potentially granting the Beijing government arbitrary power to arrest and extradite anyone to mainland China. This stirred up fear among those long harboring distrust and resentment of China.

Um certo desconforto cresceu durante a última década, mais pessoas começaram a temer que os prospectos de identidade pessoal e local seriam esmagados.

Desde que a China retornou seu domínio sobre Hong Kong em 1997, o relacionamento entre China e Hong Kong se manteve relativamente favorável sob o regime de “um país, dois sistemas”. No entanto, um certo desconforto sobre o crescimento da China, logo ali ao lado, cresceu significativamente durante a última década, à medida que mais pessoas começaram a temer que os prospectos de identidade pessoal e local seriam esmagados.  Por exemplo:

  • A entrada de milhões de turistas chineses que gastam com extravagância está impactando as vidas dos moradores locais, já que os turistas compram desde leite em pó até imóveis.
  • Os jovens que se graduam da universidade sentem que suas oportunidades estão sendo tomadas deles pelos chineses do continente.
  • A entrada de milhões de turistas chineses que gastam com extravagância está impactando as vidas dos moradores locais, já que os turistas compram desde leite em pó até imóveis.

Desde os tempos do governo colonial britânico, Hong Kong possui a versão mais pura do capitalismo de livre mercado. Em diferentes pesquisas globais, Hong Kong se posicionou[2] como a economia mais livre e competitiva do mundo. O setor privado sempre teve sucesso em seu mandato de criação de riqueza, aproveitando o porto livre com um esquema de baixos impostos acompanhado da economia chinesa vibrante. O resultado é um grande desequilíbrio econômico na sociedade:

  • Apesar do crescimento do PIB e da riqueza agregada, os cidadãos comuns trabalham sem prospectos de compartilharem da riqueza que ajudaram a criar.
  • Os jovens estão desesperados para crescerem economicamente.
  • O governo falhou em trazer mais igualdade à sociedade através de medidas secundárias de distribuição.

No entanto, Hong Kong permanece uma cidade com bastante liberdade: liberdade de imprensa e de informação; liberdade para protestar; liberdade nas crenças; e liberdade no Estado de direito. É verdade que Hong Kong não tem liberdade para escolher seus líderes, mas não é uma liberdade ‘perdida’: Hong Kong nunca teve isso, nem durante o domínio britânico ou desde 1997.

Mesmo assim, as gerações mais jovens cresceram com proliferação de valores universais idealizados, como a liberdade e democracia. As pessoas estão buscando a esperança através da reforma política e de um governo melhor. Muitos acreditam que o direito de voto universal é a única garantia para a liberdade que eles têm e a autonomia prometida pela China; e essa é uma das principais demandas deste levante popular.

Os protestantes estão expressando uma aspiração incontestável pela esperança, no entanto a maioria não entende que os sistemas políticos terrenos são transitórios e não são confiáveis. A única pessoa que pode nos dar esperança e nos libertar de verdade é Jesus.

O poder das mini narrativas

A inquietação em Hong Kong é um desafio direto ao estabelecimento político. Ao redor do globo, há grandes mudanças no centro do poder. Os receptáculos tradicionais do poder, quer seja político ou cultural, podem ser desafiados agora, como vemos pelos protestos que estão sendo realizados em diversos países. O poder se manifesta de outras formas agora. Partes interessadas menores e mais fracas podem ter somente o poder de atrapalhar e não de ditar, e de destruir, mas não de criar; mas é o suficiente para criar um impasse ou anarquia. O poder está se desintegrando e fragmentando.

Em Hong Kong, com a proliferação das redes sociais, as mini narrativas encontraram seus canais e vozes.

Em Hong Kong, com a proliferação das redes sociais, as mini narrativas encontraram seus canais e vozes. Durante esse tempo de inquietação, não temos visto um líder identificável que organiza “as tropas”. As ações foram coordenadas por aplicativos de celular como Telegram ou postagens no LIHKG.

Os protestantes e desordeiros mascarados e vestidos de preto operam através de aglomerações relâmpago e o vigilantismo nas ruas, comprovando assim o crescimento dos micropoderes. Os que estavam alienados não estão mais marginalizados. As pessoas que se sentiam sós ideologicamente ou em suas experiências, estão equipadas para encontrarem pessoas semelhantes e se empoderarem. Numa idade de populismo pós-moderno, as mini narrativas se tornam peças viáveis no cenário político mais amplo, e a liderança elitista é colocada às margens.

O fluir da dinâmica fragmentada desafia a sabedoria convencional e paralisa a autoridade estabelecida. Ao mesmo tempo, existe uma mudança emocional ao passo que as pessoas começam a desconfiar e se desconectarem emocionalmente das suas lealdades tradicionais. A igreja precisa estar atenta à esta grande mudança na dinâmica do campo de colheita e reestruturar e reivindicar a meta narrativa – com Jesus e sua mensagem de libertação no centro novamente.

A luta da alma humana

Há muitos jovens entre os manifestantes mascarados e pessoas que lutam nas ruas. Uma em cada três pessoas presas por criminalidade ou violência é menor de idade. Quando suas máscaras são removidas, parecem moderados com seus rostos inocentes. Como eles tiveram coragem de fazer parte desse jogo perigoso de manifestação nas ruas?

Os jovens possuem a necessidade de serem reconhecidos. Sem os protestos, eles não teriam conhecido uns aos outros. Teriam passado sua adolescência em casa. Muitos têm pais ausentes que trabalham durante muitas horas ou são de lares com somente um dos pais. Ao se juntar aos manifestantes, esses jovens recebem o reconhecimento de seus pares. Eles encorajam e cuidam uns dos outros. Os moços e moças logo se tornam camaradas em sua batalha. Aceitação, respeito, ou até mesmo a fama se tornam um combustível poderoso para impulsionar até esforços heroicos ‘no campo de batalha’.

Os jovens possuem a necessidade de serem reconhecidos. Sem os protestos, eles não teriam conhecido uns aos outros.

Alguns destes jovens, além de gritarem slogans articulando suas demandas, raramente discutem suas aspirações políticas. Em vez disso, suas conversas geralmente rodam em torno de comentários racistas sobre os novos imigrantes e outros chineses do continente, e como os recém-chegados e visitantes estão “roubando” os recursos locais.

Outros querem reconhecimento do mundo todo. Eles acreditam que o povo de Hong Kong deveria se diferenciar dos chineses continentais. Eles não querem uma possível “diluição” sob um único enquadramento soberano. Subjacente à incitação da autonomia está uma preocupação profunda com sua identidade. Infelizmente, tal sentimento já foi introduzida de forma letal nas plataformas de redes sociais, onde os protagonistas anti-China compartilham sua propaganda política e ódio.

A geração Y e geração Z em Hong Kong cresceram em um ambiente de alta tecnologia, mas de pouco afeto. Conexões rápidas de internet possibilitam que mais pessoas se conectem às comunicações e aos relacionamentos online, alimentando o isolamento e alienação. A geração mais jovem está cada vez mais crescendo em um estado de pobreza espiritual, inércia social e com uma ânsia por relacionamentos autênticos.[3] Isso explica como a descarga de adrenalina e reconhecimento dos seus colegas que também vão às ruas se tornou cada vez mais magnético para eles, mesmo com as sérias consequências se forem presos.

Em uma comunidade que teve contato com a fé cristã há somente 170 anos, somente cerca de 10% da população é cristã. A maioria dos jovens ainda precisa aprender que Jesus encarnado é o salvador e pode curar suas feridas e cicatrizes e que ele oferece um relacionamento rico e autêntico. O choro pela esperança é audível e alto. É de fato um tempo de oportunidades.

A igreja entre os que sofrem

À medida que a inquietação persiste, todos na cidade estão incertos sobre como isso terminará. Apesar da subversão dos slogans gritados (“liberação” e “revolução”), a demanda principal é o direito de voto universal, e a maioria das pessoas é realista sobre a continuação do “um país, dois sistemas”. Mesmo assim, a lei e ordem precisam ser recuperados para preparar um caminho para uma solução política. Além disso, muitos aspectos da vida precisam ser revisitados, das políticas e econômicas e de moradia à educação, assim como a confiança e tolerância na comunidade. Em poucos meses, Hong Kong, a orgulhosa “Pérola do Oriente”, perdeu muito do seu brilho, humilhada por sua implosão social.

Muitos cristãos enxergam essa luta como uma briga pela liberdade e democracia. Outros cristãos estão com medo de a perseguição de cristãos na China se espalhar.

Com o movimento de protesto focado em reparar o desgoverno e defender Hong Kong contra a ameaça do governo totalitário chinês, muitos cristãos enxergam essa luta como uma briga pela liberdade e democracia.[4] Outros cristãos estão com medo de a perseguição de cristãos na China se espalhar para o sul e consideram essa luta uma batalha antecipada pela liberdade de fé e louvor.[5]Alguns até citam Dietrich Bonhoeffer como uma inspiração para arriscar a prisão ao tomar essa posição.

Inicialmente, alguns cristãos acreditavam que deveriam ser pacificadores. Eles se posicionaram entre os protestantes e o cordão da polícia cantando “Cantai aleluias ao Senhor”. À medida que os confrontamentos físicos se tornaram rotineiros e o nível de violência aumentou, as demonstrações de pacificação dos cristãos foram desapareceram.

Até a igreja se humilhou. Os diversos meses de perturbação desafiaram sua relevância em um contexto de constantes mudanças. Enfrentando as pressões, por parte grandemente dos jovens, em responder às injustiças sociais e políticas, muitas igrejas pareceram ficar paralisadas e imobilizadas.  Pior ainda, a igreja é vista, não à frente da luta por justiça social, mas como parte da instituição que está ficando para trás, sem visão para o futuro de Hong Kong.

A igreja também está tão dividida quanto a comunidade ao seu redor, quer seja por linhas políticas/ideológicas ou geracionais. Se os líderes das igrejas optarem por não apoiarem os jovens, eles poderão ser acusados de falta de atenção às injustiças e poderão perder a geração mais jovem de suas congregações;  no entanto, se eles apoiarem a geração mais nova, alienarão a geração mais velha da congregação que os acusará de tolerar a violência e de tomar uma posição contra o sistema.

Alguns pastores reagiram seguindo os jovens para as ruas. Alguns abriram as portas das igrejas como um refúgio para os protestantes e se tornaram participantes voluntários. Muitos líderes se tornaram os liderados.

Como a igreja deveria responder?

O que Jesus faria? Jesus nasceu numa época de tirania romana e hegemonia colonial. João Batista, através de seus discípulos, perguntou se Jesus era “aquele que haveria de vir” (Mt 11:3), o Messias, o libertador. Jesus ressaltou para eles o que eles haviam visto e ouvido: “os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas novas são pregadas aos pobres” (Mt 11:4-5). Então, quando os próprios discípulos de Jesus perguntaram antes de sua ascensão: ” Senhor, é neste tempo que vais restaurar o reino a Israel (At 1:6)?” Jesus os disse que testemunhassem sobre ele até os confins da terra

A igreja precisa se posicionar ao lado dos fracos e dos que sofrem.

Imitar os valores de justiça de Jesus e a retidão de Deus é um compromisso para a vida toda de alcançarmos os pobres, os fracos, os marginalizados e proclamar as boas novas. Somos chamados para sermos testemunhas de Deus na terra para transformarmos as vidas integrais das pessoas e não somente apresentarmos soluções políticas. Muitas igrejas estão sendo criticadas durante essa época de manifestações por falharem em mobilizar suas congregações a lutarem contra a injustiça ou ministrarem aos pobres e necessitados, em alguns casos simplesmente relegando tais ministérios de “misericórdia” aos comitês ou à uma linha no orçamento.

A igreja precisa se posicionar ao lado dos fracos e dos que sofrem. Há pessoas vivendo com medo e clamando pela esperança. Há pessoas isoladas, alienadas e buscando uma comunidade. As próximas gerações estão buscando aprovação, aceitação e por uma identidade da qual possam ter orgulho. Em Cristo, temos o ápice da esperança na qual a humanidade pode depender, uma intimidade enriquecedora e uma identidade como filhos de Deus. Em Cristo, não existe tempestade que nunca acaba. Além da tempestade, louve a Deus, Jesus é a resposta.

Notas finais

  1. Conhecido também como lei de extradição.
  2. Tais como o Fórum Econômico Mundial ou Heritage Foundation.
  3. Nota do Editor: Veja o artigo de Ben Pierce, “Conectando-se com a nova cultura global jovem” na edição de março de 2019 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2019-03-pt-br/jesus-no-mundo-secular.
  4. Nota do Editor: Veja o artigo de Thomas Harvey “A sinização da religião na China”, na edição de setembro de 2019 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2019-09-pt-br/sinizacao-da-religiao-na-china.
  5. Nota do Editor: Veja o artigo Joann Pittman, “O novo normal para o cristianismo na China”, na edição de maio de 2019 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2019-05-pt-br/o-novo-normal-para-o-cristianismo-na-china.

Photo credits

Photo ‘2019 Hong Kong anti-extradition bill protest‘ por Studio Incendo (CC BY 2.0). Cropped, contrast adjusted, and tint added to bottom.

Photos por Joseph Chan on Unsplash

Francis K. Tsui é de Hong Kong e nas últimas duas décadas tem trabalhado ativamente com missões asiáticas servindo como professor, mentor e membro do conselho da Asian Access e AsiaCMS. Ele possui múltiplas graduações em história moderna chinesa, administração, assim como estudos missionários e de liderança. Atualmente ele está estudando para seu doutorado na Fuller Seminary.

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