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Introdução

“Amado, oro para que você tenha boa saúde e tudo lhe corra bem, assim como vai bem a sua alma” (3 João 1.2 NVI).

Nesta epístola do apóstolo João, ele escreve uma carta pessoal de preocupação, amor e bem-estar para seu querido amigo Gaio. Uma carta é um tratado de bons votos e encorajamento à consistência na verdade. A versão grega (peri pantōn euchomai; em português traduzido do inglês, “Eu desejo acima de tudo mais”) tem a conotação de prosperidade e a condição de estar em boa saúde. João não está implicando uma prática doutrinária, mas um profundo desejo de plenitude na vida diária.

A pregação precisa e deveria ter um grande impacto sobre o bem-estar, presente e futuro, da raça humana.

Em nosso mundo contemporâneo, a pregação é uma ferramenta poderosa para expressar desejo, amor e preocupação. A pregação precisa e deveria ter um grande impacto sobre o bem-estar, presente e futuro, da raça humana. No Antigo e no Novo Testamento, o proclamador/pregador/profeta desempenhou um papel fundamental e notável no bem-estar integral do povo.

Um breve fundamento bíblico da proclamação e o papel do proclamador

No Antigo Testamento

Os profetas eram os representantes da proclamação no Antigo Testamento. Eles literalmente serviram como mediadores entre Jeová e seu povo. Suas mensagens podiam ser apresentadas como uma afirmação, uma repreensão, ou um consolo. As mensagens dos profetas estavam ligadas à história do povo, sua cultura, costumes e influências políticas e sociais. Elas eram uma parte sempre presente da realidade cotidiana.

Ao olhar para seu papel, vejo um sentido de “aliança” em uma relação multifuncional: Deus, o profeta, e o povo. Eles agiram como uma “consciência” ambulante, em contato e em sintonia com Deus, e, ao mesmo tempo, em sintonia com o povo. Eles eram os profetas daquele dia, e não profetas do dia seguinte. Da mesma forma, os pregadores de hoje precisam compreender e abordar as muitas questões complexas enfrentadas pelo mundo.

Os profetas, como proclamadores, estavam ligados à cultura da qual pertenciam. O diálogo entre cultura e mensagem é dinâmico e contextual. Em outras palavras, a mensagem afeta e influencia a cultura das pessoas ao moldar, desafia ou confronta seu sistema de crenças, para o bem-estar do povo.

O ministério e a mensagem de Jesus

O valor central do ministério e da mensagem de Jesus era integral. O “bem-estar” ou “boas novas” da mensagem eram inclusivas. Nas palavras de Mateus, “Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do reino e curando todas as enfermidades e doenças.” (Mt 9.35 NVI) Está claro que Jesus tinha uma abordagem integrativa e natural para cuidar das pessoas. Séculos depois, a dicotomia entre “anunciar as boas novas” e “curar” continua, embora cada vez mais uma nova abordagem esteja ocorrendo nos círculos religiosos e científicos.[1]

Jesus estava consciente do contexto cultural em que ministrava e sua mensagem foi contextualizada ao povo e às circunstâncias.

Jesus estava consciente do contexto cultural em que ministrava e sua mensagem foi contextualizada ao povo e às circunstâncias.[2] A pregação de Jesus teve uma influência profunda, saudável e poderosa no bem-estar integral de seus ouvintes. Hoje, a pregação de Jesus deve ser revisitada, especialmente quando há uma ampla gama de interpretações e métodos de pregação.

Devemos seguir o modelo da pregação sobre a saúde mental de um grupo exemplificada pelo nosso Senhor e Mestre, Jesus. Seu impacto sobre a saúde mental das pessoas foi evidente em seus encontros com pessoas como a mulher samaritana, Nicodemos, Zaqueu, Bartimeu e seus 12 discípulos. Ele os conheceu onde eles estavam, por exemplo, na praia para os discípulos, porque eram pescadores.

Da mesma forma, os pregadores de hoje devem ir de encontro com as pessoas com a mensagem de Deus onde elas estão, em seu ponto de necessidade. É crucial explorar, de forma profunda e hermenêutica, a composição teológica da mensagem. A imago Dei, a imagem de Deus, deve ser relida e proclamada. Os homens e mulheres foram criados à imagem e semelhança de Deus. Tal afirmação dá à humanidade um lugar, uma posição, um valor, um propósito, uma razão de ser, uma verdade que afirma a identidade do ser humano como “a coroa da criação” e “seu tesouro especial”. Entende-se que a presença do pecado denigre o plano original. Entretanto, quando a ênfase principal é sobre o pecado e não sobre o plano divino original, a mensagem se torna limitada, incompleta ou mutilada, e como resultado, não é terapêutica para os ouvintes.

Jesus intencionalmente enfatizou e resgatou o valor e o mérito dos homens e mulheres. Em cada instância, ele deixou seus seguidores saberem, verem e sentirem que a vida é um processo contínuo no qual fé, amor, compaixão, esperança, alegria, prova, doença e resistência faziam parte da peregrinação terrena no caminho para um destino eterno. Jesus, como um mensageiro com sua mensagem, é um modelo para todos nós.

Uma reflexão e jornada pessoal

De acordo com o National Institute of Mental Health (em tradução livre, “O instituto nacional de saúde mental”), aproximadamente 1 em cada 5 adultos nos EUA (43,8 milhões) luta contra doenças mentais em um determinado ano. Da mesma forma, aproximadamente 1 em cada 25 adultos nos EUA (9,8 milhões) sofre de uma doença mental grave que interfere significativamente ou limita uma ou mais atividades importantes da vida.[3]

Nós, como igreja, desempenhamos um papel crucial no bem-estar das pessoas.

Pessoalmente, como profissional de saúde mental e professor de Cuidados Pastorais e Aconselhamento, este tópico me preocupa profundamente. Sou membro de um corpo docente interdisciplinar em uma Escola da Divindade[4] e isso me desafia a ver a realidade que vivemos nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Nós, como igreja, desempenhamos um papel crucial no bem-estar das pessoas. Temos a obrigação divina de representarmos bem a mensagem de Deus e de sermos mensageiros saudáveis. Todos os dias, ao entrarmos em contato com as pessoas na igreja, no trabalho ou no ambiente acadêmico, ouvimos muitas histórias dinâmicas.

Essas histórias, em si mesmas, estão cheias de mágoas, feridas, tristeza, decepção, frustração, dor, ou possivelmente esperança, alegria e celebração. Cada história reflete como as circunstâncias da vida tocaram alguém em uma determinada etapa de sua vida. Se aqueles que celebram suas realizações e alegrias recebem espaço para serem ouvidos, pelo mesmo motivo, como seria ótimo se aqueles que enfrentam seus “pontos baixos” pudessem também ter o mesmo espaço, cenário e oportunidade de compartilhar suas próprias experiências. Talvez esse possa ser nosso desafio – criar uma nova maneira de fazer comunidade e proclamação.

Em nosso mundo contemporâneo, nosso “púlpito” deve ser móvel. A conclusão é que um púlpito móvel é um santuário sagrado no qual teologia e cuidado pastoral se encontram. O único propósito é trazer as histórias das pessoas para dentro da história de Deus. Se não fizermos isso, a mensagem para a grande maioria dos ouvintes continuará a ser irrelevante para sua realidade.

Eu sou filho e neto de pregadores, e respondi a um chamado à obediência como ministro e como missionário. Como teólogo e conselheiro clínico de saúde mental, fui desafiado em minha própria peregrinação a me questionar e isso me levou a compreender o poder, a validade e a relevância das boas novas em meio aos vários momentos da vida das pessoas.

Ao entregarmos uma mensagem que segue regras e homilética, não podemos esquecer de encontrar uma mensagem sólida e saudável sob os fundamentos das Escrituras e da hermenêutica.

Este exercício intencional me levou a explorar mais profundamente minha própria parcialidade, meus pressupostos teológicos, preconceitos e até mesmo algumas declarações doutrinárias de crenças que, em nome da “boa hermenêutica”, alienaram outros como não sendo valorizados e dignos diante de Deus. O caminho tem sido longo, mas é agradável e significativo. Em minha jornada encontrei a dor de pessoas que, em nome da crença ou doutrina ‘correta’, foram ostracizadas, deixadas de fora, ou simplesmente ignoradas. Tentei tornar meu púlpito um púlpito móvel, interpretando o que o Senhor fez, ouvindo as histórias e aprendendo com elas. Isto foi terapêutico, não só para o contador de histórias, mas também para os ouvintes.

Ao entregarmos uma mensagem que segue regras e homilética, não podemos esquecer de encontrar uma mensagem sólida e saudável sob os fundamentos das Escrituras e da hermenêutica.

Minha ênfase em “saudável” é porque acredito que este é um dos principais desafios, mas ao mesmo tempo, oportunidade que enfrentamos hoje.

Alguns conselhos práticos

Como uma pessoa que dispensa cuidados e que quer impactar as pessoas com a mensagem, permita-me compartilhar algumas ideias que podem ser úteis:

  1. Lembre-se que as pessoas querem experimentar como a Palavra de Deus tem relevância em todas as passagens de suas histórias pessoais e de sua história. Algumas histórias de vida são cheias de vergonha, frustração, medo, raiva, tristeza, sonhos não realizados, relacionamentos quebrados, angústia e outros. À medida que o mensageiro e a mensagem se aproximam de suas realidades, seu impacto se torna um triângulo saudável de consciência, esperança, significado, propósito e crescimento. Portanto, crie espaço para se conectar com as necessidades das pessoas.
  2. Dê espaço para mostrar às pessoas como o amor incondicional de Deus está sempre presente. Às vezes comunicamos e articulamos muito bem as verdades bíblicas, mas os conceitos parecem mais frios e distantes do que as pessoas estão experimentando em sua própria realidade. Portanto, elas se alienam de Deus. Do Gênesis ao Apocalipse, vemos o amor incondicional e a presença de Deus. Ele tem constantemente mostrado uma proximidade com a humanidade. Ele nos lembra repetidamente que não está distante de nossa história pessoal.
  3. Temos que nos certificar de que nossa mensagem apresente um homem e uma mulher que ainda estão passando por um processo – não um produto acabado. Paulo visualizou isso em sua experiência pessoal saudável: “Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.” (Fp 3.12 NVI)
  4. Como um mensageiro, seja realista com a mensagem. Uma das principais responsabilidades de um cuidador não é gerar falsas expectativas ou promessas, mas estabelecer um alicerce de saúde, amor e cuidado. Não há respostas fáceis para as questões complexas da vida. Entretanto, não as evite, descarte ou ignore. Podemos ouvir e acompanhar aqueles de quem cuidamos em sua peregrinação e confiar em Deus para que em seu tempo ele possa responder.
  5. Esteja ciente de que no meio de nossos congregantes, espectadores e leitores há pessoas que estão enfrentando problemas de saúde mental, em uma gama que vai do moderado ao crônico.[5] Há esperança também para eles. De acordo com pesquisas “…a maioria dos pastores, membros da família e indivíduos com doença mental aguda concordam que os cristãos com doença mental aguda podem prosperar espiritualmente”.[6] Apesar de sua situação pessoal ou familiar, é possível uma mudança estrutural, funcional, e mesmo a cura. Uma palavra de encorajamento, esperança, a presença de Deus e amor incondicional durante seu tratamento e cuidados é como água no deserto.

Conclusão

Pregar é uma arte. O uso das ferramentas corretas nas mãos de Deus é um veículo de cura, afirmação, admoestação saudável, restauração, mudança e esperança. As palavras do apóstolo João ainda têm validade em nosso mundo contemporâneo: “Amado, oro para que você tenha boa saúde e tudo lhe corra bem, assim como vai bem a sua alma”.

Notas

  1. For more in this area see: Cobb, M.R., C.M. Puchalski and B. Rumbold, eds., Oxford Textbook on Spirituality in Healthcare (Oxford: Oxford University Press, 2012); Koenig, H.G., D.E. King, and V.B. Carson, eds., Handbook of Religion and Health (Oxford: Oxford University Press, 2012); Puchalski, C.M., and R.N. Ferrel, Making Health Care Whole. Integrating Spirituality into Patient Care (West Conshohocken: Templeton Press, 2010).
  2. To explore more about this concept see: D.A. Carson, Christ & Culture Revisited (Grand Rapids: Wm.B.Eerdmans Publishing, 2008). Besides, H.Richard Niebuhr, The Responsibility of the Church for Society and Other Essays (Westminster John Knox Press, 2008).
  3. See more detailed statistics, www.nami.org/learn-more/mental-health-by-the-numbers.
  4. School of Divinity, Gardner-Webb University, Boiling Springs, NC (USA)
  5. Nota da Editora: Veja o artigo de Gladys Mwiti e Bradford Smith: “Voltando a atenção da igreja à saúde mental”, na edição de novembro de 2018 da Análise Global de Lausanne https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/voltando-a-atencao-da-igreja-a-saude-mental
  6. See complete LifeWay Research, https://lifewayresearch.com/wp-content/uploads/2014/09/Acute-Mental-Illness-and-Christian-Faith-Research-Report-1.pdf.

Originário da Colômbia, na América do Sul, Hebert Palomino O., doutor, BCCC, BCPC serviu como missionário batista durante 25 anos no Peru e Paraguai. Ele é professor de Cuidados Pastorais e Aconselhamento na Escola de Divindade da Gardner Webb University, Boiling Springs, Carolina do Norte, EUA www.gardnerwebb.edu.

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