Introdução

A batalha espiritual é uma área emergente, porém desconfortável, dentro do esforço de levar todo o Evangelho para o mundo todo. Entusiasmo e preocupação estão lado a lado. Tentando lidar com as várias e complexas questões que envolvem este assunto, trinta ministros de libertação, missiólogos, pastores e teólogos encontraram-se em Nairóbi, no Quênia, durante os dias 16 a 22 de agosto de 2000. Juntos discutimos questões ligadas à batalha espiritual numa conferência denominada “Livra-nos do Mal”, convocada pelo Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial e pela Associação dos Evangélicos na África. O objetivo da consulta foi buscar uma compreensão abrangente e bíblica sobre: (1) quem o inimigo é; (2) como ele atua; e (3) como podemos combatê-lo para podermos ser mais eficazes na evangelização de todos os povos.

Nosso grupo incluiu ministros de libertação e de ministérios de oração da América Latina, África, Ásia, Europa, Austrália e dos Estados Unidos da América; pastores e líderes evangélicos da África e América do Norte; um executivo de uma agência de assistência social e desenvolvimento; um psicólogo africano que trabalha na América do Norte; teólogos da Ásia, Europa e América do Norte; missionários que atuam na África e na América Latina; executivos de missão da Europa e América do Norte; e professores de missiologia da América do Norte e Europa. Entre nós estiveram presbiterianos, pentecostais, metodistas, anglicanos, luteranos, batistas e membros da Igreja Evangélica da África Ocidental, Igreja do Sul da Índia, Igreja Profética Berachah, Igreja Evangélica da Aliança, Igreja dos Irmãos, Aliança Cristã e Missionária, e Bible Church (Estados Unidos).

Observamos com interesse que a maioria dos participantes da consulta provenientes de sociedades ocidentais veio a reconhecer as realidades do invisível ou do âmbito espiritual como resultado da sua experiência transcultural. Aqueles oriundos do “Mundo dos Dois Terços” (**) freqüentemente reportavam suas experiências com missionários ocidentais que, por desconhecerem estas realidades espirituais, estavam portanto incapacitados para ministrar às realidades espirituais que as pessoas do Mundo dos Dois Terços vivenciam diariamente.

Como nos encontramos em Nairóbi, pudemos aprender com as idéias dos irmãos e irmãs da África Oriental e do movimento de reavivamento que ali se opera. Afirmamos especialmente a forma como os nossos irmãos e irmãs da África Oriental exaltam a Jesus, e este crucificado, diante da batalha espiritual. Reconhecemos de forma renovada que o único caminho para se quebrar o poder de Satanás na vida diária, na sociedade e na cultura é andando na luz, para que Satanás não possa nos prender na escuridão.

Como expressamos na oração “livra-nos do mal”, oramos para sermos libertos do pecado pessoal, dos males naturais, de espíritos e poderes malignos e do mal na sociedade.

Origens

Nosso ponto de partida inclui a Declaração de Lausanne, o Manifesto de Manila e a Declaração do Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial de 1993 sobre a Batalha Espiritual, que afirmam a realidade do nosso engajamento na batalha espiritual:

Cremos que estamos engajados numa constante batalha espiritual com os principados e poderes do mal, que procuram derrubar a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. (Declaração de Lausanne, 1974)

Afirmamos que a batalha espiritual demanda armas espirituais, e que precisamos pregar a Palavra no poder do Espírito e clamar constantemente para que possamos nos inserir na vitória de Cristo sobre os principados e poderes do mal. (Manifesto de Manila, 1989)

Concordamos que evangelizar é trazer pessoas das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus (Atos 26.18). Isto envolve um inevitável elemento de batalha espiritual. (Declaração de Lausanne sobre Batalha Espiritual, 1993)

A Conferência e seus participantes reconhecem a relevância da batalha espiritual para a evangelização mundial. Não estamos tentando tomar o partido de nenhuma visão em particular, mas expandir o pensamento evangélico numa área emergente na qual existem controvérsias. Esta Declaração indica áreas nas quais há comum acordo, áreas de tensões não resolvidas, advertências, e aponta áreas que ainda precisam ser estudadas e exploradas mais a fundo. Nossa intenção é encorajar as igrejas de todas as tradições a usarem esta Declaração para estimular uma discussão franca, uma reflexão séria e um ministério prático na área da batalha espiritual, para glória de Deus.

Base comum

Afirmações teológicas

Nós afirmamos o testemunho bíblico de que as pessoas foram criadas à imagem de Deus para viverem em comunhão com ele, em comunhão com outras pessoas e como mordomos da criação de Deus. O relacionamento entre Deus e a humanidade foi quebrado por meio da entrada misteriosa do mal na criação de Deus. Desde a queda o mal tem influenciado todos os aspectos da criação e da existência humana. O plano de Deus é redimir e restaurar sua criação caída. O propósito redentor de Deus é ser revelado e percebido na história da salvação, e plenamente no evangelho da encarnação, morte, ressurreição, ascensão e volta de seu Filho, Jesus Cristo. Nós somos chamados a participar na missão de Deus de combater a maldade e o maligno a fim de restaurar o que foi destruído como resultado da queda. Vivemos num mundo em tensão entre o Reino que já veio em Cristo e a realidade contínua do mal. A missão de Deus será consumada quando Cristo voltar, o Reino de Deus vier com poder e o mal for destruído e eliminado para sempre.

1. Chamar pessoas para a fé em Cristo, convidando-as para serem libertas do domínio das trevas e ingressarem no Reino de Deus – é o mandato missionário para todos os cristãos. Afirmamos uma compreensão integral da evangelização, que encontra sua fonte no relacionamento com Cristo e no chamado que ele nos faz para que nos tornemos íntimos com ele na comunhão dos crentes. O Espírito Santo nos capacita para a evangelização mundial através dos ministérios da palavra (proclamação), da ação (serviço e ação social) e do sinal (milagres, encontros de poder), todos eles inter-relacionados e que acontecem no contexto da batalha espiritual.

2. Satanás é um ser real, pessoal e criado. Satanás tentou Jesus no deserto, procurou destruí-lo e, ainda à luz da manhã da ressurreição, viu-se derrotado. Ele continua opondo-se ativamente à missão de Deus e à obra da igreja de Deus. (1)

3. As potestades e principados são seres ontologicamente reais. Eles não podem ser reduzidos a meras estruturas sociais ou psicológicas. (2)

4. Satanás age tirando aquilo que Deus criou para o bem-estar humano e pervertendo-o através dos seus propósitos, que são destruir e desvalorizar a vida escravizando indivíduos, famílias, comunidades locais e sociedades como um todo. Satanás contextualiza seus esforços de diferentes maneiras nas várias sociedades e culturas.

5. Satanás usa artimanhas numa tentativa de redirecionar a lealdade humana para alguém ou alguma outra coisa que não Deus. Isso ele faz, não apenas no nível pessoal, mas em relação a todas as formas institucionalizadas de alianças religiosas ou ideológicas, inclusive a igreja.

6. Satanás e “os principados e potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, as forças espirituais do mal nas regiões celestes” agem de várias maneiras: (3)

a. Enganando e distorcendo
b. Tentando a pecar
c. Afligindo o corpo, as emoções, a mente e a vontade
d. Assumindo controle sobre uma pessoa
e. Desordenando a natureza
f. Distorcendo os papéis da estrutura social, econômica e política
g. Apontando bodes expiatórios como meio de legitimar a violência
h. Promovendo interesses pessoais, injustiça, opressão e abuso
i. Através da esfera do oculto
j. Através das falsas religiões
k. Através de todas as formas de oposição à obra salvífica de Deus e à missão da igreja.

7. Um propósito primordial da vida e ministério de Jesus foi expor, confrontar e derrotar Satanás, e destruir a sua obra.

a. Cristo derrotou decisivamente Satanás na cruz e através da ressurreição.
b. Jesus confrontou Satanás através da oração, justiça, obediência e libertando os cativos.
c. Com sua maneira de ministrar às pessoas ele estabeleceu um enorme desafio às instituições e estruturas do mundo.
d. Os cristãos compartilham da vitória de Cristo e recebem dele autoridade para se opor aos ataques de Satanás na vitória que temos em Cristo. (4) O modelo de autoridade espiritual é Jesus e sua obediência e submissão a Deus na cruz.

8. Ao mesmo tempo que reconhecemos que Deus está soberanamente no controle de sua criação, as evidências bíblicas indicam uma variedade de causas de doenças e calamidades: Deus, Satanás, escolhas humanas ou traumas e um universo desordenado, são todos citados. Entendemos que não podemos saber com certeza a causa exata de nenhuma doença ou calamidade específica.

9. Os elementos de uma visão de mundo que seja cristã dentro de nossos respectivos contextos culturais devem incluir:

a. Deus é o criador e mantenedor de tudo o que existe, tanto das coisas visíveis quanto das invisíveis. Essa criação inclui os seres humanos e os seres espirituais como criaturas morais.

b. As pessoas foram criadas segundo a imagem de Deus, de modo que os aspectos da pessoa humana estão inseparavelmente interligados. Corpo, alma, emoções e mente não podem ser dissociados.

c. Deus continua sendo soberano sobre toda a sua criação na história, e nada acontece fora do controle supremo de Deus. Assim, o mundo não pode ser concebido como um universo fechado simplesmente governado por leis científicas naturalistas. Nem pode ser considerado um sistema dualista no qual Satanás é entendido como sendo igual a Deus.

d. Nós rejeitamos uma visão dualista de mundo. Portanto, as bênçãos de Deus e o sacerdócio das hostes angelicais, as conseqüências do pecado e os ataques de Satanás e dos demônios não podem ser isolados, colocados unicamente em uma esfera espiritual.

e. Qualquer ensinamento sobre batalha espiritual que nos leve a temer o Diabo a ponto de perdermos nossa confiança na vitória de Cristo sobre ele e no poder soberano de Deus em nos proteger precisa ser rejeitado.

f. Todas as questões que dizem respeito à batalha espiritual devem ser encaradas em primeiro lugar e principalmente em relação à nossa fé e ao nosso relacionamento com Deus, e não simplesmente a técnicas que precisemos dominar.

g. A volta de Cristo e a consumação definitiva da sua vitória sobre Satanás nos dá hoje a confiança necessária para lidar com as dificuldades espirituais e nos fornece a lente através da qual devemos interpretar os eventos no mundo hoje.

10. A pessoa e a obra do Espírito Santo são centrais na batalha espiritual: (5)

a. Ter recebido o poder do Espírito Santo, o exercício dos dons espirituais e a oração são pré-requisitos para se engajar no conflito espiritual.

b. O exercício dos dons espirituais deve ser acompanhado pelo fruto do Espírito.

c. A obra do Espírito e a Palavra precisam permanecer juntas.

A batalha espiritual na prática

1. Ao ouvirmos relatos de como a igreja, na sua história, tem lidado com Satanás e o demoníaco, nós constatamos que:

a. Há similaridades marcantes entre o que acontecia na história da igreja primitiva e o que acontece em encontros demoníacos e de libertação hoje.

b. A libertação dos poderes satânicos e demoníacos e sua influência na igreja primitiva eram sinais usados como prova da ressurreição e da veracidade das afirmações de Cristo pelos pais da igreja.

c. A preparação para o batismo incluía, além do arrependimento, a renúncia ao Diabo e às alianças demoníacas e religiosas anteriores na vida do convertido. Esta prática continua em algumas igrejas até hoje.

d. A não-disposição ou incapacidade da igreja ocidental contemporânea para acreditar na realidade das crenças espirituais e de se engajar no batalha espiritual surgiu de uma visão de mundo falha, influenciada pelo Iluminismo, e não é representativa da totalidade da história da igreja em relação ao batalha espiritual, nem tem sido característica do cristianismo no Mundo dos Dois Terços na história contemporânea.

e. Todo cristão tem acesso à autoridade de Cristo, e os demônios reconhecem o poder de Cristo quando exercido por cristãos.

f. A história do evangelismo está repleta de exemplos nos quais a resposta ao evangelho era acompanhada por “encontros de poder”; estes, no entanto, nunca são, em e por si mesmos, garantia de uma resposta positiva.

g. A história da igreja também aponta para uma conexão entre idolatria e o demoníaco.

2. Trabalhar para conquistar fortalezas positivas para Deus através de uma “invasão amável”, que vence o mal com o bem e conquista as pessoas pelo amor, é tão importante quanto destruir as fortalezas satânicas. Afirmamos, assim, a importância e a primazia da igreja local e de sua vida de fé.

3. Adoração é batalha espiritual. Ela não é agressiva, uma batalha espiritual espetacular; não é uma estratégia nem um meio para atingir determinado fim; mas envolve mente, corpo e espírito respondendo com tudo aquilo que somos a tudo aquilo que Deus é.

4. A batalha espiritual é algo arriscado e muitas vezes custoso. Ao mesmo tempo que há vitórias, também há muitas vezes uma retaliação do Diabo em várias formas de ataque, como doença e perseguição. Contudo nós não recuamos diante da batalha espiritual, visto que evitá-la tem um custo para o Reino de Deus.

5. O ministério da batalha espiritual está alicerçado no poder transformador dos relacionamentos, não em técnicas ou métodos.

6. O ponto de partida para a batalha espiritual é a nossa relação com Jesus e o ouvir o Espírito Santo.

7. Afirmamos a complexidade da pessoa humana. Precisamos distinguir o psicológico do espiritual quando se trata de ministério e aconselhamento. Ministros de libertação e conselheiros psicólogos muitas vezes não conseguem perceber esta distinção; essa é uma falha que pode causar danos.

8. A santidade é central na resposta cristã ao mal:

a. No exercício da autoridade espiritual, aqueles que não dão a devida atenção ao caráter e à santidade mutilam com isso todo o panorama bíblico de crescimento espiritual e santificação.

b. Praticar batalha espiritual sem a devida atenção à santidade pessoal é um convite ao desastre.

c. A busca pela santidade não se aplica unicamente ao indivíduo, mas à família, à igreja local e à grande comunidade da fé.

d. Ao mesmo tempo que a santidade inclui a piedade pessoal, ela se aplica igualmente às relações sociais.

9. Ocupar-se com o Diabo não é trabalho para heróis. Quem se engaja neste ministério precisa procurar suporte de um grupo de intercessores.

10. O acompanhamento posterior aos indivíduos que experimentaram a libertação através do batalha espiritual deve ser uma parte inseparável do ministério. A igreja local deve ser encorajada a integrar as pessoas na comunidade cristã e a discipulá-las. Não providenciar isso é pecado.

11. Ouvimos, com tristeza, histórias de pessoas que, incentivadas por sua auto-confiança e motivadas pelo dinheiro, vêm de fora e atropelam os cristãos locais, realizando um ministério de batalha espiritual irresponsável (1) que pressupõe um conhecimento superior sobre a realidade local; (2) que trata os cristãos locais como inferiores ou ignorantes; (3) que reivindica crédito por coisas pelas quais os cristãos locais vinham orando e trabalhando há anos; e (4) que deixa resultados escabrosos e muitas vezes dor, alienação e até mesmo perseguição contra a igreja local, e ainda assim reivindicam grande vitória.

12. A batalha espiritual envolve mais do que um inimigo – ela precisa abranger a carne, o Diabo e o mundo:

a. Vemos, alarmados, males sociais como injustiça, pobreza, etnocentrismo, racismo, genocídio, violência, abusos contra o meio ambiente, guerras, assim como a violência, a pornografia e o ocultismo na mídia.

b. Estes males sociais são encorajados e mantidos por instituições humanas nas quais os principados e potestades agem contra Deus e seu propósito para a humanidade.

c. A tarefa da igreja no combate aos principados e potestades no contexto sociopolítico consiste em desmascarar as pretensões idólatras destes, identificar seus valores e ações desumanizadoras e lutar pela libertação de suas vítimas. Este trabalho envolve ações espirituais, políticas e sociais.

d. Não se consegue encontrar uma fundamentação bíblica para a construção de estruturas hierárquicas elaboradas do mundo espiritual.

Advertências

1. Rogamos que haja cautela e sensibilidade no uso da linguagem quando se refere à batalha espiritual. Embora seja bíblico, o termo “batalha espiritual” é ofensivo para não-cristãos e carrega conotações que aparentam ser contraditórias, vindas daqueles que servem a um Senhor que morreu numa cruz. Além do mais, há uma enorme gama de significados ligados a vários termos oriundos da batalha espiritual, tais como cura, livramento, encontros de poder, possessão, demonização, poderes, e assim por diante. Além disso, novos temos estão sendo constantemente forjados (por exemplo: “batalha espiritual em nível estratégico”, “cura profunda”, etc.)

2. Pedimos vigilância para evitar qualquer sincretismo com crenças e práticas religiosas não-cristãs, como religiões tradicionais ou novos movimentos religiosos. Afirmamos também que os novos crentes estão sendo razoáveis quando esperam que o Evangelho vá ao encontro de suas necessidades de poder espiritual.

3. Pedimos discernimento no que se refere a usos mágicos de termos cristãos, e cautela aos ministros de libertação para que evitem transformar batalha espiritual em mágica cristã. Qualquer sugestão de que uma técnica ou método em particular no ministério da batalha espiritual assegure sucesso é uma compreensão mágica e sub-cristã do agir de Deus.

4. Encorajamos a comunidade a agir com extremo cuidado e discernimento no sentido de assegurar que autoridade espiritual não se transforme em abuso espiritual. Qualquer expressão de poder ou autoridade espiritual deve ser realizada em compaixão e amor.

5. Clamamos por um manto de humildade e graça da parte de obreiros transculturais que, tendo recentemente descoberto a realidade do domínio espiritual, vão para outras partes do mundo onde as pessoas conhecem e convivem por séculos com as realidades locais da esfera espiritual e da luta com o demoníaco.

6. Como a batalha espiritual se expressa de diferentes maneiras nas diferentes sociedades, nós alertamos veementemente contra levar idéias, métodos ou estratégias desenvolvidas numa sociedade e usá-las em outra sem qualquer crítica.

7. Precisamos resistir à tentação de adotarmos as táticas do demônio como sendo nossas. Por isso alertamos aos ministros de libertação que se certifiquem de que os métodos utilizados por eles na batalha espiritual estejam baseados na obra de Cristo na cruz:

a. Submetendo-se a Deus através da sua morte expiatória na cruz, Cristo privou Satanás da sua exigência de poder;

b. A disposição de Cristo ao auto-sacrifício em vez de revidar é o modelo para a batalha espiritual;

c. Quando separamos a cruz da batalha espiritual, criamos um clima de triunfalismo.

8. Pedimos ações que assegurem que as nossas abordagens e explanações sobre a batalha espiritual não prendam os novos convertidos aos mesmos medos por causa dos quais Cristo morreu para libertá-los. Ser livre em Cristo significa ser livre do medo do demoníaco.

9. Advertimos contra uma ênfase exagerada em espíritos, que culpa os demônios pelas ações das pessoas. Os demônios só podem agir através de pessoas, e estas podem ativamente escolher cooperar. Os espíritos não são a única fonte de resistência ao Evangelho.

10. Advertimos contra relações confusas ou coincidência nas causas ao reportar vitórias, e quanto ao uso indiscriminado de relatos não documentados para estabelecer a validade da guerra cósmica.

11. Advertimos contra o uso da escatologia como uma desculpa para não lutar contra todas as formas do mal no presente.

Áreas de tensão

1. Na igreja primitiva, encontros com demônios eram vistos com mais freqüência onde a igreja encontrava não-cristãos. Muitas vezes a história da evangelização relaciona encontros de poder com a evangelização de não-cristãos. O texto bíblico revela que, embora seja possível um crente ser afligido fisicamente por um espírito demoníaco, (6) não existe nenhuma evidência direta de que demônios precisem ser expulsos de crentes. Por outro lado, nós também ouvimos o testemunho de irmãos e irmãs de cada continente afirmando o contrário. Isto levanta a pergunta de como devemos compreender o efeito do demoníaco na vida dos cristãos. Fomos incapazes de solucionar esta tensão em nossa conferência, mas cremos que seria bom atentarmos para as questões seguintes:

a. Estamos cientes de que, em muitos casos, novos cristãos hoje em dia não passaram por processos de renúncia a alianças anteriores à vida cristã, processos que eram normativos na igreja pré-iluminista. Alguns cristãos possivelmente perderam sua fé; há outros que se denominam cristãos, mas o são somente de forma nominal. Alguns alegam que estas poderiam ser as razões pelas quais os cristãos podem parecer ser suscetíveis ao demoníaco.

b. Ao mesmo tempo que afirmamos que estar em Cristo significa que o cristão pertence a Cristo e que a nossa natureza foi transformada, assim como o pecado e a nossa necessidade de lidar com o pecado em nosso corpo, mente, emoções e vontade, todavia nos questionamos se o demoníaco, embora não seja mais capaz de reivindicar posse sobre os cristãos, não poderia continuar afligindo-os no corpo, na mente, emoções e vontade, a não ser que seja enfrentado.

2. Embora seja possível que Satanás se manifeste com mais força em determinados lugares do que em outros, e que alguns espíritos pareçam estar vinculados a certos locais, nós concordamos que parece haver pouco embasamento bíblico para uma porção de ensinamentos e práticas associadas com algumas formas de batalha espiritual que focalizam nos espíritos territoriais. Experimentamos tensão sobre a questão de haver ou não comprovação bíblica para a “oração guerreira” contra espíritos territoriais como uma ferramenta válida para a evangelização. Nós concordamos, no entanto, que não é válida a afirmação de que a “oração guerreira” contra espíritos territoriais seja a única chave para a evangelização eficaz.

3. Existe uma tensão quanto a em que medida podemos descobrir e comprovar coisas da esfera espiritual a partir de experiências não referidas explicitamente nas Escrituras, em contraste a limitar nossa compreensão da esfera espiritual apenas pelo que diz a Escritura. Alguns sustentaram que a experiência é crucial para a compreensão da batalha espiritual; este é um ponto a ser explorado num diálogo posterior.

4. Não chegamos a uma conclusão sobre se e como as verdades a respeito das realidades espirituais e as metodologias de batalha espiritual podem ser verificadas empiricamente. Alguns se envolvem em experimentação ativa no ministério da batalha espiritual como um meio de desenvolver conceitos gerais concernentes à batalha espiritual, enquanto outros não estão convencidos da validade desta proposta de aprendizado.

Fronteiras que precisam ser mais exploradas

1. Ao mesmo tempo que afirmamos o posicionamento bíblico de Lausanne, há uma necessidade urgente de uma hermenêutica que:

a. Permita que a cultura e a experiência desempenhem um papel na formulação de nossa compreensão e teologia da batalha espiritual. O embasamento e prova de tal teologia é a Escritura, como fielmente interpretada pela comunidade hermenêutica da igreja global guiada pelo Espírito.

b. Permita uma análise de questões que se levantam na experiência cristã e que não são diretamente abordadas pela Escritura.

c. Aceite o fato de que o Espírito Santo tem surpreendido a igreja ao agir de formas não explicitamente ensinadas nas Escrituras (Atos 10 e 15), e que ele pode estar fazendo isso de novo.

2. Existe uma necessidade urgente de se incorporar o estudo da batalha espiritual ao currículo teológico nas escolas e centros de treinamento ao redor do mundo.

3. Há uma necessidade urgente de desenvolver critérios e métodos que nos permitam avaliar experiências ministeriais de uma maneira comprovável.

4. A emergente compreensão da complexidade da pessoa humana necessita uma exploração e um exame significativos. Especificamente requeremos:

a. Um contínuo diálogo entre as pessoas que estão engajadas em ministérios de livramento e aqueles que exercem profissões da área médica e psicológica.

b. Um compartilhar mundial urgente com os ministros de libertação acerca do que se conhece hoje sobre o Distúrbio de Identidade Dissociativa (DID), antes chamado Distúrbio de Personalidade Múltipla.

c. Uma abordagem de diagnóstico que permita aos ministros de libertação discernir entre as personalidades do DID e as entidades espirituais.

d. Um diálogo entre as profissões teológicas e as médicas e psicológicas que desenvolva uma compreensão integral da pessoa humana, relacionando corpo, mente, emoções e espírito sem dissociar um do outro, como funcionam individualmente e de modo relacional.

5. Pedimos uma perspectiva mais interdisciplinar para a descrição do que é batalha espiritual, com base nas reflexões das disciplinas pertinentes.

6. Apelamos às igrejas que desenvolvam uma compreensão de santificação que abranja a pessoa humana como um todo: nosso ser espiritual, emocional, mental e físico. Tal compreensão integral de santificação incluirá o desenvolvimento das disciplinas espirituais, cura interior e livramento. Todas precisam se tornar ferramentas que sustentem a santificação dos cristãos através da Palavra pelo Espírito Santo. (7)

7. Existe uma necessidade de explorar o papel que a batalha espiritual tem na prática do batismo, da santa ceia, da confissão de pecados e absolvição, do lava-pés e do ungir com óleo.

8. Gostaríamos de ver uma análise séria sobre o poder de engano e sedução da publicidade em termos do seu papel em promover inveja, consumismo e falsos deuses.

Nós louvamos a Deus porque, ao mesmo tempo que representamos diversas tradições teológicas, culturais e eclesiásticas, bem como posições diversas sobre a batalha espiritual, fomos abençoados e inspirados ao aprendermos uns dos outros. Isto nos encoraja a crer que é possível desenvolver uma compreensão da batalha espiritual e de sua prática no contexto da comunidade cristã para que, a seu tempo, possa se tornar parte da vida cotidiana da igreja.

Convidamos a igreja a juntar-se a nós na continuidade do estudo e incorporação de ministérios apropriados de batalha espiritual na vida da igreja. Particularmente pedimos às igrejas do Ocidente que ouçam com mais atenção as igrejas do Mundo dos Dois Terços, e juntem-se a elas numa séria redescoberta da realidade do mal.

Notas

  1. Jó 3.1s.; 1 Cr 21.1; Mt 4.1-11; 12.23; Lc 8.12; 22.3; Jo 13.2; 12.31; 16.11; Cl 2.15-22.
  2. Mc 3.22; 1 Co 2.6-8; 15.24-26; Cl 2.15; Ef 1.21; 3.10; 6.10-18.
  3. 2Co 2.11; 1 Ts 3.5; 1Tm 2.14; Ap 12.10; Mt 8.16; 9.32; Mc 5.1-20; 9.17; Lc 8.30; Jó 2.7; Mt 9.32s.; 12.22s.; 15.22-28; Jó 1.16-19.
  4. Jo 12.31; 16.11, 33; Cl 2.15; Hb 2.14; 1Jo 3.8; Ap 5.5; Ef 6.10-18; Tg 4.7; Lc 9.1; Mt 28.18; cf. Mt 12.28s.; Ef 6.11, 13.
  5. Gl 5.22s.; 1 Co 13.4-7; Ef 6.17.
  6. Lc 4.38s.; 13.10-13; 2Co 12.7-9.
  7. Jo 15.3; 17.17

**N.T.: “Mundo dos Dois Terços” foi a tradução escolhida para a expressão “Two-Thirds World”. Este termo tem sido usado, no período pós-guerra fria, para designar os países pobres, em oposição aos países ricos, antes chamados de “Primeiro Mundo”.

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