Ministrando Para Povos Dispersos

Observação do Editor: Este Documento Avançado do Cape Town 2010 foi escrito por T.V. Thomas, Sadiri Joy Tira e Enoch Wan com o objetivo de oferecer um panorama do tema a ser discutido na sessão Multiplex intitulada “Ministrando Para Povos Dispersos”. Os comentários sobre este documento feitos através da Conversa Lausanne Global serão enviados ao autor e a outras pessoas para que se chegue ao formato final a ser apresentado no Congresso.

 I.             INTRODUCÃO

As pessoas estão se movendo desde tempos antigos. Pouquíssimas pessoas vivem hoje no mesmo lugar geográfico dos seus ancestrais. Se pensarmos bastante a respeito sobre este assunto, perceberemos que a maioria de nós veio de outro lugar, mesmo que isso tenha acontecido séculos ou décadas atrás.

O movimento sem precedentes da diáspora, de povos em grande escala e com grande frequência tem estabelecido uma tendência global que tem marcado os séculos 20 e 21. Este fenômeno atinge a maioria dos países do mundo. Uma recente pesquisa revela que “atualmente, em todo o globo, 200 milhões de pessoas vivem e trabalham longe do lugar onde nasceram.”[1] Na verdade, os números são maiores quando incluímos  segunda e terceira gerações. Com fatores sócio-culturais como a globalização e a urbanização, há fortes razões para que este fenômeno global cresça em escala e importância.

Os fatores que causam estes movimentos de povos dispersos sem precedentes, normalmente, são desastres naturais como terremotos, fome, tsunamis e inundações; desastres causados pelo homem, como poluição química e crise ecológica; ambientes opressivos devido a perseguições políticas ou religiosas; necessidades e oportunidades econômicas e educacionais.

Com tantas pessoas de tantas origens se movimentando em tantas direções e se estabelecendo em tantos lugares, planejados ou não, pode-se concluir que estamos rapidamente tornando nosso mundo em um “mundo sem fronteiras.”[2] Seja por tratados regionais entre países, imigração clandestina ou entrada forçada de refugiados através de fronteiras, os limites entre as nações estão se tornando cada vez mais porosos. Ministrar dentro do contexto deste fenômeno global requer novas estratégias para alcançar as grandes diásporas com o Evangelho, e através delas, cumprir a Grande Missão do Senhor Jesus.

O termo diáspora é originalmente uma palavra grega que se refere à dispersão judaica, ou seja, à dispersão dos Judeus fora da Palestina (Levítico 26:33; Deuteronômio 28:64; Ezequiel 36:19) e também se refere à dispersão dos cristãos do começo da Igreja, no Novo Testamento (Atos 8:1, 4; 11:19). No decorrer dos séculos, o termo diáspora foi adicionado ao vocabulário contemporâneo referindo-se aos Povos em Movimento que atravessam as fronteiras nacionais, ou seja, os povos dispersos. Outros termos como migração, emigração e imigração tem sido usados como referência aos Povos em Movimento.

II.  SEGUINDO EM FRENTE COM DEUS – T.V. Thomas

O Propósito Intencional de Deus para as Diásporas

O Deus da Bíblia é o Criador e autor das missões. O Próprio Deus está em uma missão (missio dei) neste mundo. É o amor e a compaixão de Deus por Sua criação e pelos humanos que O fazem buscar, enviar e salvar. A missão de Deus ecoa repetidamente pela Escritura. Em Sua aliança com Abraão, Deus afirma que Abraão e seus descendentes serão instrumentos de bênção para as nações (Gênesis 12:1-3). Mais adiante, Deus especifica a função de Israel como sua nação serva destinando-a a ser um “tesouro pessoal… reino de sacerdotes e uma nação santa” (Êxodo 19:5-6). Passagens do Antigo Testamento como 1 Crônicas 16:23-24 e Salmo 67 estão centralizadas na missão de Deus.

Tanto a Grande Comissão ordenada em Mateus 28:19-20 para “fazer discípulos de todas as nações” quanto a exortação divina de Cristo, “Vocês serão minhas testemunhas” (Atos 1:8), exigem que evangelizemos os Povos em Movimento. A realidade de que Deus está em uma missão é destacada pelo apóstolo Paulo em seu sermão no Areópago em Atenas, onde a importância dos povos dispersos é claramente mostrada em Atos 17:26-27: “De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar. Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós.

O versículo 26 diz que é Deus quem, soberanamente, orquestra os lugares e tempos, onde e quando as pessoas vivem. No versículo 27, Paulo focaliza o motivo porque Deus move pessoas para diferentes lugares. O motivo é para cumprir Seus propósitos – “para que os homens o buscassem…” É um fato universal que novos ambientes despertam curiosidade nas pessoas, faz com que se questionem suas antigas presunções, desafia a entender e comparar suas perspectivas religiosas e faz com que se explorem novas alternativas e, então, se tornem mais receptivas ao Evangelho. Cremos que Deus está dispersando as nações do mundo para promover uma mega colheita global. Consequentemente, a Igreja deve abraçar esta nova realidade global e criar estratégias para alcançar os vários grupos de povos em diáspora.

III.        MUDANDO PARA ALCANÇAR OS POVOS EM MOVIMENTO – Enoch Wan

Oportunidades e Desafios Quando Trabalhamos com Diásporas

Devido às mudanças demográficas em escala global, cristãos contemporâneos devem entender que há oportunidades e desafios quando trabalhamos com grupos de diásporas no contexto do século 21. Na sessão Multiplex, iremos explorar novas abordagens, conforme resumo no Diagrama 1 abaixo.

“Missões de diáspora” é a prática que inclui ministrar para (em evangelismo e serviço), ministrar através (motivar e mobilizar) dos grupos diaspóricos e ministrar além deles (para outros grupos no cumprimento da Grande Comissão).

Como o Espírito Santo está trabalhando entre os Povos em Movimento

Caso de Estudo 1 – Plantio da Igreja (Igreja nos lares em NAC = Nações de Acesso Criativo)

Detalhes serão fornecidos durante a Sessão Multiplex.

Caso de Estudo 2 – Igrejas Internacionais (O Farol no Kuwait)

A Igreja Evangélica Nacional do Kuwait (IENK) é uma entidade única no país do Kuwait, onde 25.000 adoradores se reúnem. Eles são extremamente diversos em denominação, doutrina, cultura e língua. Venha e aprenda os detalhes na Sessão Multiplex

Caso de Estudo 3 – Grupos de povos de Diásporas encontrando-se em “Igrejas-ônibus”

Muitas igrejas no Ocidente têm “ônibus de igrejas”, mas os povos de diáspora tem “Igrejas-ônibus”. Fotos e descrição serão apresentadas na Sessão Multiplex.

Incríveis Janelas de Oportunidades

Exemplo 1 – Karen da Birmânia (Myanmar) na Tailândia agora nos EUA

Aproximadamente 150.000 refugiados de Karen tem vivido em campos de refugiados ao longo da fronteira entre Tailândia e Birmânia por quase 20 anos. Nos últimos anos, quase 20.000 refugiados da Birmânia por ano, que vem dos campos de refugiados tailandeses podem ser alcançados nas principais cidades dos EUA. Uma descrição detalhada será apresentada na Sessão Multiplex.

Exemplo 2 – Os povos não alcançados da África na Europa e Américas

De acordo com Lausanne World Pulse, agora há ricas oportunidades com relação aos Grupos de Povos Não alcançados (Unreached People Groups –UPGs) da África agora alcançáveis na Europa e nas Américas. Uma explicação detalhada será apresentada na Sessão Multiplex.

Exemplo 3 – Alcançando coreanos, chineses e brasileiros no Japão

O Japão é conhecido por ser “o cemitério de missionários”, contudo muitas nacionalidades no Japão estão abertas ao Evangelho. Venha à Sessão Multiplex e você se surpreenderá ao saber que coreanos, chineses e brasileiros no Japão podem ser alcançados com o Evangelho.

O Que a Igreja Pode Fazer?

1. Motivar e mobilizar igrejas locais e crentes

Motivar e mobilizar igrejas locais e crentes a agarrar as oportunidades para alcançar diásporas em suas vizinhanças praticando “missões em nossa porta”. Se esta ideia é nova para você, venha à Sessão Multiplex e saiba mais detalhes.

2. Integrar “paradigmas relacionais” e “missões de diáspora”

Esforços missionários e abordagem ministerial no Ocidente tendem a ser administrativas e empresariais (ou seja, resultados focados em objetivos mensuráveis e crescimento numérico), programáticas e paternalistas (ou seja, sem toque relacional e prática de parceria). Portanto, novas abordagens são propostas abaixo.

A abordagem relacional no ministério (incluindo missões de diáspora) difere daquelas de “abordagem programática” pois é cara, demorada, cansativa, confusa e arriscada; porém está próxima ao coração de Deus. O coração da questão no ministério é “a questão do coração”. O ministério relacional deve vir do “coração”, levando à transformação da “mente”, traduzida para o que fazemos com nossa “mão” em serviço. O padrão do ministério relacional é: coração àcabeça à mão. Venha à Sessão Multiplex e você aprenderá sobre estes fatos.

3. Praticar mordomia estratégica e responsabilidade relacional

À luz da tendência demográfica global, conforme descrita por Philip Jenkins[3], a Igreja Cristã deve praticar mordomia estratégica, que deve ser definida como “o sábio uso de recursos dados por Deus e oportunidades criadas por Deus para Sua glória e para a expansão estratégica do Reino.” Há uma responsabilidade relacional vertical com Deus para boa mordomia e para compartilhar o Evangelho horizontalmente. Se esta ideia é nova para você, venha à Sessão Multiplex e aprenda mais detalhes.

4. Engajamento em parceria estratégica para rede de contatos e sinergia

Parceria estratégica é uma necessidade extrema no contexto do século 21, quando o centro do cristianismo está mudando para o Hemisfério Sul, a fim de substituir o paternalismo Ocidental e missões centradas na Europa.  

IV.        MOVENDO-SE ATRAVÉS DE POVOS EM MOVIMENTO – Sadiri Joy Tira

A Igreja está em Movimento

Deus, em Sua soberania, está movendo pessoas para que O busquem e O conheçam. Este movimento em massa de pessoas tem apresentado desafios e oportunidades para alcançar os Povos em Movimento. A notícia encorajadora é que a Igreja de Jesus Cristo também está se movendo! Historicamente, missões globais eram a prerrogativa daqueles que eram chamados e treinados para ministérios interculturais. Nos últimos anos, forças de missões (pessoas) têm sido sustentadas pelos cristãos de diáspora ou cristãos em movimento. Há uma mudança dramática de paradigma em missões. Agora, não são somente os tradicionais “missionários por profissão” ou os especiais comissionados “fazedores de tendas” que estão espalhando o Evangelho de Jesus Cristo, mas também pessoas em movimento aparentemente comuns, carregando as extraordinárias Boas Novas para os cantos mais distantes do globo.

Abordagens Ministeriais e Modelos através de Cristãos da Diáspora

Abordagem 1:  Alcançando compatriotas em seus países de origem

  1. Ilustração 1 – Iranianos na América do Norte estão mobilizando outros Iranianos na América do Norte.
  2. Americanos estão fazendo “missões” em curto prazo em sua terra natal.
  3. Ilustração 2 – Cristãos Punjabis no Reino Unido estão visitando famílias, parentes e amigos em suas vilas nativas com o propósito de compartilhar a fé em Jesus Cristo que encontraram no Reino Unido.
  4. Ilustração 3 – Indonésios que se converteram ao cristianismo enquanto trabalhavam como trabalhadores contratados em Hong Kong estão voltando à Indonésia preparados para compartilhar sua fé com seus familiares e comunidade.

Abordagem 2:  Alcançando pessoas locais e regionais

 

  1. Ilustração 1 – Trabalhadores coreanos na Ásia Central estão alcançando seus hospedeiros – uzbeques, cazaques e quirguizes.
  2. Ilustração 2 – Cristãos brasileiros que vivem no Japão estão alcançando o povo japonês no Japão.
  3. Ilustração 3 – Cristãos chineses do continente, contratados como trabalhadores estão testemunhando para mulçumanos falantes de Árabe no Golfo.

Abordagem 3:  Alcançando Transientes

  1. Ilustração 1 – Marinheiros filipinos estão alcançando membros de tripulações multinacionais e viajantes em navios.
  2. Ilustração 2 – Famílias hospedeiras cristãs australianas estão alcançando alunos internacionais de países como China.
  3. Ilustração 3 – Cristãos da Malásia estão alcançando trabalhadores contratados do Nepal na Malásia.
  4. Ilustração 4 – Cristãos da Zâmbia estão alcançando mulçumanos diplomatas de Malavi alocados na Zâmbia.

Abordagem 4:  Ministérios compassivos

  1. Ilustração 1 – Cristãos cingaleses da Alemanha estão alcançando refugiados na Europa.
  2. Ilustração 2 – Agências cristãs nos EUA estão ajudando aqueles que buscam auxílio em cidades Americanas.
  3. Ilustração 3 – Congregações diaspóricas em Toronto estão respondendo às vitimas do terremoto no Haiti.

A realidade das diásporas e o potencial da missiologia de diáspora para motivar e mobilizar cristãos a alcançar Povos em Movimento, e através deles, não devem ser subestimados. Nunca antes houve tantas oportunidades de alcançar pessoas com a mensagem de Jesus Cristo. É por isto que congregações devem ser motivadas e mobilizadas a participar desta nova estratégia de missões.

Além disso, um esforço concentrado deve ser feito para ensinar missiologia de diáspora tanto em um nível formal quanto informal, treinando futuros pastores, obreiros internacionais (missionários) e líderes. O treinamento intencional de diáspora irá preparar obreiros para ministérios no mundo sem fronteiras. Instituições teológicas estão gradualmente focalizando a importância da diáspora em suas grades curriculares. É importante notar que o Centro Universitário e Seminário Ambrose (Ambrose University College and Seminary) em Calgary, Canadá, está trabalhando neste sentido através de seu Centro Jaffrai para Iniciativas Globais (Jaffray Centre for Global Initiatives).  Em fevereiro de 2010, Ambrose ofereceu um curso interligado ao centro universitário/seminário – Missiologia de Diáspora no Contexto Canadense: Tendências do Terceiro Milênio e Questões em Missões. O Seminário Ocidental (Western Seminary) em Portland, Oregon, EUA também ofereceu uma variação deste curso em abril de 2010, através do Instituto de Estudo de Diáspora para alunos de doutorado em Missiologia. Enquanto algumas iniciativas pioneiras em missiologia de diáspora têm surgido, não há no momento qualquer esforço concentrado na comunidade acadêmica evangélica para treinar Obreiros do Reino para missões de diáspora. Se a diáspora é uma questão tão importante do século 21, então não seria essencial incluir missiologia de diáspora e missões de diáspora nas grades curriculares de nossas instituições acadêmicas evangélicas? À luz das informações apresentadas nesta Sessão Multiplex, esta não seria uma hora oportuna para a Igreja mobilizar cristãos para a prática e associação em missões de diáspora?

Oremos ao Senhor da seara para levantar um clamor mundial por um mover sem precedentes do Espírito Santo, para que Toda a Igreja leve Todo o Evangelho para Todo o Mundo.

© The Lausanne Movement 2010 

 


[1] Duncan Mavin, “One Big ATM”, The Financial Post Magazine, 7 de outubro de 2008. Don Mills, Canada: National Post

[2] O termo “mundo sem fronteiras” é atribuído ao economista Kenichi Ohmae, que escreveu The Borderless World (McKinsey & Company, Inc., 1991)

[3] Philip Jenkins, em The Next Christendom: The Coming of Global Christianity.  Oxford Press, 2001

Print Friendly, PDF & Email