O Movimento de Lausanne e o evangelicalismo global: distintivos teológicos e impacto missiológico

Este artigo é um capítulo da obra “The Lausanne Movement: A Range of Perspectives (Oxford: Regnum Books, 2014)”, editada pela Regnum Books, e a sua publicação foi autorizada. As opiniões expressas pelo autor são pessoais e não representam necessariamente as do Movimento de Lausanne. Obtenha mais informações acerca da obra no website da Regnum.

A Comissão de Lausanne para a Evangelização Mundial (Lausanne Committee for World Evangelization, LCWE), mais conhecida como Movimento de Lausanne, é um movimento evangélico global que nasceu no Congresso Internacional sobre Evangelização Mundial em 1974. Neste evento, que decorreu em Lausanne (Suíça), estiveram presentes 2700 delegados de mais de 150 países. Organizado por Billy Graham e John Stott, o Movimento de Lausanne deu origem a vários encontros estratégicos a nível global, onde se inclui o encontro de Lausanne em 1974, o de Manila (1989) e o da Cidade do Cabo, na África do Sul (2010). O objetivo deste capítulo é explorar os principais distintivos teológicos do Movimento de Lausanne, bem como o seu impacto missiológico. O capítulo começa com uma apresentação dos principais distintivos teológicos, à qual se segue uma exploração do impacto missiológico alargado do Movimento no seu todo.

Distintivos teológicos do Pacto de Lausanne

Uma das heranças mais duradouras do Movimento de Lausanne tem sido os documentos. O Pacto de Lausanne, o Manifesto de Manila e o Compromisso da Cidade do Cabo definem os distintivos teológicos fundamentais do Movimento.[109] O Pacto de Lausanne é amplamente considerado como um dos documentos teológicos mais importantes no movimento evangélico. Na cerimónia de encerramento do Congresso de Lausanne sobre Evangelização Mundial em 1974, Billy Graham e muitos dos principais líderes da igreja ao nível global assinaram um documento que não tardou a espalhar-se por todo o mundo. Em poucos anos, este documento passou a ser a declaração de fé orientadora de inúmeras igrejas, novos movimentos cristãos, seminários e organizações missionárias em toda a parte.

O Pacto de Lausanne é composto por quinze artigos que definem os distintivos teológicos fundamentais. Iremos agora explorar cada uma destas afirmações essenciais presentes no documento.

O propósito de Deus (Artigo 1)

O primeiro artigo, intitulado O propósito de Deus, afirma que o Deus trino é um Deus missionário que nos chamou para participarmos com alegria na Sua missão redentora no mundo. Procura também esclarecer que missão é essencialmente acerca de Deus e da Sua iniciativa e propósito redentores no mundo, para além de quaisquer ações, tarefas, estratégias ou iniciativas levadas a cabo pela igreja. No fundo, missão é mais acerca de Deus e de quem Ele é do que sobre quem nós somos e o que fazemos. Por outras palavras, missão não é em primeiro lugar um subconjunto da doutrina da igreja, a qual procura fazer crescer e aumentar o seu alcance e influência em todo o mundo. Antes, é a história da ação redentora de Deus na humanidade que precede a vida da igreja. O documento afirma que: “Deus tem chamado do mundo um povo para si, enviando-o novamente ao mundo como seus servos e testemunhas, para estender o seu reino, edificar o corpo de Cristo, e também para a glória do seu nome.” Como é evidente, reconhecemos que Deus chamou a sua igreja a uma participação completa na sua missão através de atos específicos de obediência, proclamação e serviço no mundo. Isto, porém, deve acontecer dentro do enquadramento mais amplo da missão de Deus. Assim a igreja pode evitar o triunfalismo e manter um testemunho que coloca Deus no centro.

A autoridade e o poder da Bíblia (Artigo 2)

O segundo artigo destaca outro distintivo teológico importante do Movimento de Lausanne, a saber, o papel central das Escrituras na evangelização mundial. O Movimento de Lausanne afirma a inspiração divina, a veracidade e a autoridade das Escrituras tanto do Velho como do Novo Testamento, na sua totalidade, como Palavra de Deus “sem erro em tudo o que ela afirma, e a única regra infalível de fé e prática”.[110] A beleza desta afirmação reside no facto de evitar dois possíveis problemas que, por vezes, têm influenciado negativamente a compreensão das Escrituras por parte da igreja. Por um lado, o Movimento de Lausanne está firmemente integrado na grande corrente histórica da fé cristã que afirma o poder e a eficácia da Palavra de Deus. Grande parte do declínio de muitos ramos da igreja deve-se à incapacidade de permanecerem firmes acerca da autoridade das Escrituras. Por outro, é importante reconhecer que o poder das Escrituras tem como principal fonte o próprio Deus. Tal não diminui o facto de que a Palavra de Deus conforme a recebemos é inerrante e as suas premissas são verdadeiras. Precisamos, no entanto, de recordar que lemos e proclamamos as Escrituras na presença de Cristo ressuscitado e em continuidade com a igreja viva ao longo dos séculos. A Escritura é “inspirada por Deus” e, portanto, emana sempre da sua autoridade divina enquanto Senhor do mundo e da igreja, que é o seu corpo.

A unicidade e a universalidade de Cristo (Artigo 3)

O terceiro distintivo teológico importante do Movimento de Lausanne é a centralidade de Jesus Cristo, que é o “único resgate pelos pecadores” e o “único mediador entre Deus e os homens”. Lausanne afirma a unicidade de Jesus Cristo, o único que morreu pelos nossos pecados.[111] O Pacto de Lausanne rejeita a ideia de que Deus fala do mesmo modo através de todas as religiões, ou de que outras religiões podem oferecer a salvação anonimamente por meio de Cristo. Em vez disso, a igreja é chamada a proclamar o poder de Cristo a toda a humanidade, bem como a convidar todos os homens e mulheres ao arrependimento dos pecados e a depositarem a sua fé e confiança em Jesus Cristo de forma explícita. O Movimento de Lausanne, portanto, rejeita tanto o universalismo tradicional como as variadas formas de universalismo cristocêntrico (como o inclusivismo), afirmando não só a supremacia de Jesus Cristo, mas também a importância da chamada ao arrependimento e fé explícitos em Jesus Cristo para salvação.

A natureza da evangelização / A igreja e a evangelização (Artigos 4 e 6)

O Movimento de Lausanne é essencialmente uma rede de cristãos comprometidos com a evangelização mundial. Tal não significa que esperamos uma resposta positiva ao Evangelho por parte de cada ser humano, mas sim que é nosso dever sagrado garantir que todos os povos do mundo têm a oportunidade de ouvir o Evangelho e de ver o seu testemunho vivo por meio da igreja. Enquanto o quarto artigo destaca a evangelização, o sexto deixa claro que a tarefa da evangelização mundial tem a igreja no seu centro. De facto, o documento afirma que “a igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho”. Por vezes a igreja é vista como tendo apenas um propósito instrumental no mundo, isto é, a tarefa de proclamar o Evangelho. O Movimento de Lausanne, contudo, considera que a igreja tem uma finalidade ontológica mais profunda e está integralmente relacionada com a consumação final do Reino.[112] Por outras palavras, a igreja não é apenas o instrumento através do qual Deus proclama o Evangelho. Antes, a igreja é aquilo que Deus está a edificar no mundo. A igreja não deve ser equiparada ao Reino, mas este não se torna realidade sem uma ligação ao povo que Deus resgatou e chamou de uma vida de pecado para a alegria da comunhão da igreja, a companhia dos redimidos. A igreja não só anuncia o poder da cruz, ela é chamada a ser “marcada pela cruz”. O Evangelho não é apenas uma mensagem independente composta por palavras, é uma mensagem numa comunidade de fé viva por todo o mundo. Como tal, a igreja não é apenas o conjunto de todos os indivíduos redimidos ou, muito menos, a soma de todas as igrejas-instituição do mundo. Ela é, essencialmente, “a comunidade do povo de Deus” que transcende todas as culturas, sistemas políticos e sociais e ideologias.

A responsabilidade social cristã / Liberdade e perseguição (Artigos 5 e 13)

O Movimento de Lausanne levou o movimento evangélico glocal a escutar as vozes de muitos cristãos em todo o mundo que sentiam que a igreja não tinha sido solidária o bastante com aqueles a quem a justiça havia sido negada e sofriam com várias formas de marginalização. Como tal, o Movimento de Lausanne afirma a preocupação de Deus com a justiça e a libertação de todas as formas de opressão. Por vezes a igreja tem tido dificuldades ao articular o relacionamento entre a evangelização e a ação social no mundo. O compromisso de proclamar o Evangelho às vezes é reduzido a campanhas evangelísticas que não são acompanhadas pela preocupação com os pobres, as pessoas sem-abrigo e os excluídos. Por exemplo, a igreja reconheceu os testemunhos vibrantes de Billy Graham e da Madre Teresa, mas não soube sempre compreender como ambos estão relacionados. Para alguns evangélicos, a ação social é uma ponte para a evangelização. Para outros, é uma consequência natural da evangelização. E outros ainda tentam vê-los como complementares.[113]

Existem três características importantes do Movimento de Lausanne que merecem ser destacadas. Em primeiro lugar, contextualiza teologicamente a ação social de forma adequada, relacionando-a às doutrinas de Deus, da reconciliação, da justiça e ao facto de todos os homens e mulheres serem criados à imagem de Deus. Em segundo, a declaração afirma que a evangelização e a ação social não são “mutuamente exclusivas”, assentando os alicerces para uma visão integrada acerca de como a pessoa e obra de Cristo são refletidas na vida e testemunho da igreja. Por fim, no centro do Pacto de Lausanne existe uma expressão de metanoia, ou arrependimento, pelo fracasso da igreja em viver de maneira consistente com o testemunho bíblico de ação social e luta pela justiça em favor dos oprimidos.

O Movimento de Lausanne também se alinhou teologicamente com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Importa reconhecer que a ação social não é apenas necessária junto dos não-crentes, mas também para milhões de cristãos injustamente presos e que sofrem perseguição. O Pacto de Lausanne afirma a importância de abordar tanto as expressões pessoais como estruturais do mal que negam a liberdade religiosa a milhões de pessoas.

Cooperação na evangelização e Esforço conjugado de igrejas na evangelização (Artigos 7 e 8)

Uma das principais características do Movimento de Lausanne é o seu desejo de transcender problemas que têm dividido a igreja e encontrar a nossa unidade mais profunda na mensagem central do Evangelho. É ao mesmo tempo um movimento evangélico e profundamente ecuménico. Como parte do movimento ecuménico, Lausanne insere-se na tradição da Aliança Evangélica Mundial e do Conselho Mundial de Igrejas tendo, porém, florescido em parte devido a ser um movimento e não uma organização em si. Não existe uma “sede” oficial e a rede é sustentada por uma pequena equipa remunerada, apoiada por dezenas de voluntários espalhados por todo o mundo. O Movimento de Lausanne criou uma plataforma comum para um conjunto impressionante de cristãos de centenas de culturas e línguas, e todos partilham um compromisso comum para a evangelização mundial. O Movimento de Lausanne não é uma organização ou instituição no sentido formal, e é precisamente por isso que a sua maior satisfação é ajudar as árvores de muitos outros corpos cristãos a dar fruto. Ele afirma com ousadia que aqueles que “partilham a mesma fé bíblica devem estar intimamente unidos na comunhão uns com os outros, nas obras e no testemunho”. O Movimento de Lausanne forneceu uma plataforma global através da qual movimentos cristãos de todo o mundo que eram, muitas vezes, negligenciados, puderam estar juntos e formar parcerias viáveis para a evangelização mundial. Embora o Movimento tenha a igreja no centro, ele também ajudou a criar ligações entre várias organizações que existem a par dela e que estão comprometidas com a tradução da Bíblia, a educação teológica, a distribuição de literatura e a evangelização para nomear algumas.

A urgência da tarefa evangelística (Artigo 9)

O Movimento de Lausanne melhorou a compreensão da quantidade de povos sem acesso adequado à mensagem do Evangelho ou a expressões viáveis da igreja. O Movimento ajudou, portanto, a alimentar uma nova onda de investigação para entender as barreiras sociais, linguísticas, culturais e de casta que, muitas vezes, impedem as pessoas de ouvir o Evangelho de maneiras que conseguem entender e se aplicam às suas culturas. Surgiram diferentes critérios para definir ao certo o que são “povos não alcançados” e qual a percentagem de cristãos necessária num dado povo para ser declarado “alcançado”. Tal levou a que o número de povos não alcançados se situasse entre os 4000 e os 6000.[114] No entanto o Movimento de Lausanne é conhecido pelo relevo teológico que dá à urgência desta tarefa e à importância da ação da igreja para garantir que todos os povos do mundo têm acesso ao Evangelho. O Pacto de Lausanne chega a desafiar os cristãos de países mais ricos a adotar estilos de vida mais simples e a contribuir com maior generosidade para a obra de evangelização mundial. É ainda crucial que esta não seja vista como uma iniciativa do Ocidente para alcançar o resto do mundo, mas sim como a responsabilidade que todos os cristãos de todos os continentes partilham de enviar e receber missionários e testemunhas interculturais por causa de Cristo.

Evangelização e cultura (Artigo 10)

Outro distintivo teológico do Movimento de Lausanne tem sido a afirmação da cultura humana. Embora todas as culturas revelem provas do poder do pecado, é também verdade que todas são “ricas em beleza e bondade”. O Movimento de Lausanne afirma que Deus é a fonte e o sustentador da cultura nas suas expressões física e social. O relacionamento é algo inerente a Deus em virtude da sua realidade trina, e por isso os relacionamentos humanos, providenciados por ele no momento da criação, refletem a sua presença nesta mesma criação. Uma das afirmações distintivas de Lausanne é a da convicção cristã de que Deus ultrapassa todas as culturas humanas e, ainda assim, escolheu revelar-se dentro dos limites e particularidades que estas possuem. Deus decidiu revelar-se no contexto das culturas humanas e, portanto, devemos resistir a atitudes que pressupõem a superioridade de uma cultura sobre outra. O Evangelho tem o poder de inspirar cada cultura e todas as realidades presentes na Nova Criação podem ser manifestadas nas singularidades completas e multifacetadas de cada cultura.

A igreja tem um longo historial de contextualização da mensagem do Evangelho para que as suas verdades imutáveis possam ser compreendidas e aceites. O jazigo histórico do Evangelho não muda, porém, a contextualização reconhece a necessidade de “traduzir” a mensagem para formas que tenham “significado e sejam aplicáveis aos povos no seu contexto cultural particular, de modo a comunicar a mensagem e o impacto original do Evangelho”.[115] O compromisso com uma contextualização adequada evita que o Evangelho seja comunicado através de uma lente monocultural e seja indevidamente separado da história. As verdades do Evangelho são imutáveis e não é a cultura que as determina. Todavia, elas não podem ser experimentadas, celebradas ou comunicadas sem estarem integradas na cultura. Toda a comunicação do Evangelho, incluindo o Novo Testamento, é um evento contextual. Mesmo uma afirmação tão simples como “Jesus é Senhor” tem de ser comunicada num idioma específico e num particular contexto cultural. A contextualização assegura, portanto, que as dimensões objetiva e subjetiva da revelação não seguem caminhos divergentes.

Educação e liderança (Artigo 11)

O Movimento de Lausanne tem ajudado a igreja a compreender que a evangelização não pode ser teologicamente reduzida a “decisões por Cristo” ou a uma visão reducionista da salvação equiparada à doutrina da justificação. Em vez disso, a evangelização inclui no seu âmago a edificação de crentes discipulados e de toda uma nova geração de líderes cristãos com instrução teológica. O papel da igreja, dos seminários e das organizações comprometidas com o discipulado é fundamental para o crescimento e sustentabilidade da igreja no mundo a longo prazo. Cada nação e cultura deveria ter acesso a educação teológica. Deveriam também ser dadas, a cada cristão, oportunidades para crescer no discipulado e no serviço. Tal não significa a exportação de formas ocidentais de educação teológica para o mundo inteiro, mas a descoberta de uma vasta gama de estratégias eficazes para instruir todo o povo de Deus.

Conflito espiritual (Artigo 12)

Um dos distintivos teológicos mais importantes, que surge do enquadramento de missões na obra maior da missão de Deus no mundo, é o reconhecimento de que o crescimento da igreja não é, em última análise, uma tarefa logística ou institucional. Ela está, sim, enraizada num conflito espiritual cósmico que deve ser enfrentado através da oração e do compreensão da natureza da guerra espiritual. A igreja não está apenas a lutar contra as forças da teologia liberal, de ideologias perigosas ou de expressões religiosas não-cristãs. No fundo, estamos envolvidos num conflito espiritual contra principados e potestades malignas que buscam opor-se à igreja e impedir o avanço da evangelização mundial. Como tal, o Movimento de Lausanne reconheceu a importância de apelar à pureza no seio da igreja, à fidelidade na oração e à identificação das forças espirituais mobilizadas contra nós. Em última análise, Jesus Cristo, a Palavra de Deus e uma igreja fiel e que ora são as características mais importantes da evangelização mundial.

O poder do Espírito Santo (Artigo 14)

Algumas expressões da igreja têm sido meticulosamente cristocêntricas, mas por vezes não têm aderido à centralidade do Deus trino na extensão maior da evangelização mundial. O Movimento de Lausanne afirma que o Pai é quem inicia, envia e a quem se destina toda a missão. O Filho é a encarnação redentora da missão de Deus. O Espírito Santo é a presença fortalecedora de Deus para o desenrolar da sua missão no mundo. Sem o poder e testemunho do Espírito Santo ninguém será convencido do seu pecado, nem poderá colocar a sua fé em Cristo ou crescerá na fé cristã. É o Espírito que renova a igreja e capacita e habilita a ser suas testemunhas eficazes no mundo. É também o Espírito que capacita a igreja para manifestar todas as realidades da Nova Criação no meio de um mundo escravo do pecado e da morte. Os dons e frutos do Espírito são essenciais para a vida e testemunho da igreja.

O retorno de Cristo (Artigo 15)

Por fim, o Pacto de Lausanne tem uma forte convicção cristã acerca da história, a qual se enquadra numa perspetiva escatológica em que o regresso visível e em glória de Jesus Cristo trará o fim da história da humanidade, a consumação do seu plano de salvação, o julgamento do mundo e a implementação do seu reino eterno. Assim, Deus definiu que a missão da igreja decorre entre a ascensão e a segunda vinda de Cristo. O Movimento de Lausanne não entrevê o surgimento de uma utopia global, ou que o Reino de Deus será uma realidade consumada afastada da sua derradeira intervenção no fim dos tempos. Em última análise, a manifestação completa da justiça e da paz resultará de uma ação e iniciativa final de Deus. Deste modo somos constantemente recordados de que todas os nosso atos de obediência no mundo devem ser enquadrados tanto na sua iniciativa de começar o plano de redenção como na de o completar. Na verdade, não é possível compreender o nosso ministério neste mundo na sua plenitude quando isolado deste enquadramento teológico alargado no qual a igreja serve e obedece.

Foi no final do Congresso de 1974 que Ralph Winters, missiólogo de renome, explicou publicamente pela primeira vez como a evangelização eficaz, mesmo se praticada por toda a igreja, só daria origem a mil milhões de novos cristãos. Sem um testemunho transcultural intencional, sobrariam dois mil milhões de pessoas fora do alcance do Evangelho.[116] Isto levou, como iremos ver depois, a um enorme aumento do esforço para ultrapassar barreiras culturais com o Evangelho de Jesus Cristo.

Distintivos teológicos do Manifesto de Manila e do Compromisso da Cidade do Cabo

O Manifesto de Manila

O segundo Congresso Internacional sobre Evangelização Mundial teve lugar em Manila (Filipinas) em 1989. É também chamado de “Lausanne II”. Mais de 4000 líderes cristãos provenientes de todo o mundo reuniram-se para discutir o avanço da evangelização mundial e refletir acerca das mudanças no mundo e no contexto de missões desde o Congresso de 1974. Tal como no primeiro Congresso, o encontro de Manila deu origem ao que hoje se designa por Manifesto de Manila. É importante compreender que tanto o Manifesto de Manila em 1989 como o Compromisso da Cidade do Cabo em 2010 não foram idealizados como substitutos do Pacto de Lausanne, nem iniciaram mudanças significativas nos distintivos teológicos históricos do Movimento de Lausanne. Antes, estes documentos procuram construir sobre os alicerces do Pacto de Lausanne e destacar novos desafios que a igreja enfrenta, ou assuntos teológicos que careciam de maior clarificação com base na reflexão posterior ao Pacto de Lausanne.

O Manifesto de Manila está organizado em 21 afirmações de abertura que, na sua maioria, reafirmam a substância do Pacto de Lausanne. A estas seguem-se doze artigos e uma conclusão que aprofundam alguns desafios teológicos, eclesiásticos e culturais específicos que dificultam a evangelização global. Nas afirmações de abertura encontramos dois distintivos que não estavam explicitamente presentes no Pacto de Lausanne. Primeiro encontramos a afirmação de que o Jesus histórico corresponde ao Cristo da glória (afirmação 5). Esta declaração aprofunda a preocupação do Movimento de Lausanne com várias tentativas teológicas de separar a obra salvadora de Cristo da sua manifestação histórica manifestada no evento da encarnação. O Movimento não adere à ideia de que Cristo pode ser experimentado de forma implícita por meio de outras religiões ou movimentos culturais. Este ponto é aprofundado no artigo 3, que rejeita de modo explícito a ideia de que o povo judeu pode ser salvo por meio de uma aliança distinta, separada de uma resposta pessoal a Jesus Cristo. Está implícito que tal se aplica também aos muçulmanos, hindus e budistas, entre outros.

O segundo distintivo teológico do Manifesto de Manila encontra-se na afirmação 18. É um apelo a que se invista mais tempo no estudo da sociedade para melhor compreender as suas “estruturas, valores e necessidades”, como parte da obra mais ampla do desenvolvimento de uma estratégia missionária. Esta afirmação implica uma maior adoção da investigação produzida pela antropologia social e cultural, de modo a ajudar a igreja a melhor cumprir a sua missão.

Os outros distintivos teológicos resultantes do Manifesto de Manila incluem uma afirmação explícita do papel da apologética na evangelização mundial. O congresso estava mais consciente de uma onda crescente de desafios intelectuais ao Evangelho cristão que requer respostas mais concertadas. A declaração também elaborou a afirmação da Declaração Universal dos Direitos Humanos por parte do Pacto de Lausanne, ao afirmar com clareza a importância de defender a liberdade religiosa em todo o mundo. Por fim, o artigo 8 do Manifesto de Manila dedica uma maior atenção a importância da formação e capacitação dos leigos para a evangelização mundial.

Embora ausente do Manifesto de Manila, foi no Congresso de 1989 que Luis Bush introduziu o conceito que, em 1990, recebeu o nome de “janela 10/40”. Este refere-se à área do globo 10 a 40 graus a norte do equador, onde vivem dois terços da população da Terra e se verificam os níveis mais altos de pobreza e de falta de acessibilidade ao Evangelho. Tal levou a que muitas agências missionárias e igrejas intensificassem o trabalho missionário nesta região específica, que é também o coração do mundo islâmico, hindu e budista.

O Compromisso da Cidade do Cabo

O terceiro Congresso de Lausanne sobre Evangelização Mundial decorreu na Cidade do Cabo (África do Sul) em 2010. Mais de 4200 líderes evangélicos de 198 países reuniram-se para refletir acerca do avanço da evangelização mundial. Os três anos anteriores ao Congresso serviram para estudar e ouvir a igreja em todo o mundo, de modo a discernir as questões teológicas e culturais mais importantes que precisavam de ser abordadas pela igreja global. O documento que daí resultou, o Compromisso da Cidade do Cabo, representa, por um lado, uma afirmação clara de todos os distintivos teológicos do Pacto de Lausanne. No entanto, é também um reenquadramento completo de como o Evangelho podem ser comunicado ao mundo com maior eficácia. Em vez de avançar novos distintivos teológicos, o Compromisso da Cidade do Cabo procura reenquadrar a discussão de um modo que pode ser implementado e aplicado numa miríade de contextos em todo o mundo. O encontro da Cidade do Cabo foi o primeiro congresso em que estiveram presentes mais cristãos dos países em desenvolvimento do que do mundo ocidental. Foi sem dúvida um dos encontros de cristãos com maior diversidade na história da humanidade.

O Compromisso da Cidade do Cabo reorganizou as afirmações base do Pacto de Lausanne e do Manifesto de Manila em redor do tema do amor de Deus. Sem retirar nada ao formidável empreendimento realizado pelo Pacto de Lausanne ao definir os distintivos teológicos centrais do Movimento, o amor de Deus apenas era mencionado uma vez em todo o documento. Tornou-se cada vez mais claro que era necessário reter as verdades do Pacto de Lausanne, mas também de as colocar no contexto mais amplo do amor de Deus. O Compromisso da Cidade do Cabo reenquadra todo o trabalho teológico do Movimento com o amor de Deus. O documento está dividido em duas partes principais. A primeira está organizada em dez temas fundamentais, tais como “Nós amamos porque Deus nos amou primeiro”, que é uma nova apresentação do artigo 1 do Pacto de Lausanne. O documento prossegue com artigos afirmando que “amamos o Deus vivo, amamos o Deus Pai, amamos o Deus Filho, amamos o Deus Espírito Santo, amamos a Palavra de Deus, amamos o mundo de Deus, amamos o evangelho de Deus, amamos o povo de Deus e, por fim, amamos a missão de Deus”. Este é o distintivo teológico mais importante do Compromisso da Cidade do Cabo.

A segunda parte do documento identifica seis temas-chave que voltam a afirmar muitos dos temas clássicos do Movimento de Lausanne. O Compromisso da Cidade do Cabo enfatiza várias novas características, incluindo o cuidado da criação (Parte II, II, 5) e uma forte crítica à idolatria do evangelho da prosperidade (Parte V, 4). O documento é um alerta à igreja para que esta permaneça fiel mesmo no meio de um mundo caído que é cada vez mais hostil ao Evangelho. O documento demonstra também uma maior consciência acerca da crescente diversidade da igreja e da necessidade de uma colaboração mais profunda e de verdadeiras parcerias, que permitam à igreja cumprir o tema original do Congresso de Lausanne: “toda a Igreja levando todo o Evangelho para o mundo todo”.

Impacto missiológico

A segunda parte deste capítulo tem como objetivo explorar o impacto missiológico mais amplo do Movimento de Lausanne. A análise divide-se em cinco temas.

A recuperação da missiologia trinitária e a “Missio Dei”: o Deus da missão e a igreja missionária

Conforme indicado nos artigos 1 e 14 do Pacto de Lausanne e afirmado de forma inequívoca nos documentos posteriores, Lausanne trouxe um enquadramento trinitário mais completo ao movimento missionário evangélico global. Não basta apenas proclamar Cristo. É necessário reformular os conceitos da mensagem que anunciamos e inseri-los no âmbito mais alargado da missão de Deus (missio Dei) e do papel habilitante do Espírito Santo. A expressão missio Dei (a missão de Deus) enquanto forma de elaborar o conceito de missão foi usada pela primeira vez pelo missiólogo alemão Karl Hartenstein em 1934. Em 1952, numa importante conferência patrocinada pelo International Missionary Council em Wilingen, Alemanha, estabeleceu-se a posição teológica de que a ação redentora de Deus precede a igreja, embora a expressão missio Dei não tenha sido explicitamente usada. A sua popularização acontece mais tarde com Georg Vicedom, que em 1963 faz dela um conceito-chave para missões na obra The Mission of God: An Introduction to the Theology of Mission. Vicedom articulou o conceito de missão como a nossa participação na missão do Pai de “enviar o Filho”. O autor afirmou ainda que “o movimento missionário do qual fazemos parte tem origem no próprio Deus trino”.[117] Todavia, a aplicação deste conceito levou a igreja a desligar-se gradualmente da missão de Deus. O resultado foi uma visão do mundo como palco da atividade redentora de Deus, que marginalizou a igreja e a sua proclamação remidora. O papel da igreja era, na melhor das hipóteses, o de indicar os aspetos em que a sociedade encontrava dificuldades de humanização ou onde a shalom divina se tornava visível no mundo.

Durante muito tempo, os cristãos evangélicos evitaram usar a expressão missio Dei porque passou a estar associada à separação entre a obra de Deus e a vida e testemunho da igreja. O Movimento de Lausanne ajudou a reintroduzir o conceito e a voltar a relacionar a teologia da missio Dei com uma compreensão clara de que a igreja ocupa um lugar central no desenrolar da missão de Deus no mundo e que, na realidade, a própria igreja é a finalidade da redenção divina. É preciso dizer que esta reconexão da missio Dei à eclesiologia provavelmente não estava nos planos dos líderes de Lausanne. No entanto, ela revelou-se como o resultado lógico dos encontros regionais regulares entre centenas de líderes de igrejas para discutir missões e das consultas sobre temas específicos que têm sido a espinha dorsal do Movimento de Lausanne.

A ênfase no acesso ao evangelho: dos povos aos padrões de imigração globais

O avanço missiológico mais importante do século XX foi a compreensão de que os textos da Grande Comissão falam de discipular nações inteiras e levar o evangelho a todos os povos da Terra. A palavra “nações” no Novo Testamento é uma tradução do termo grego ethne, que significa “povos” ou “grupos étnicos”. O trabalho pioneiro de Ralph Winter no estabelecimento do conceito de povo não alcançado e de Luis Bush com a janela 10/40 são duas ideias fundamentais que foram amplamente adotadas pelas igrejas envolvidas no Movimento de Lausanne e, como tal, ajudaram a integrá-las no seu legado.

Tal deu origem não só a uma base teológica mais profunda para missões à escala global, mas também a milhões de novos cristãos e dezenas de milhares de novas igrejas em povos que, até à data, não tinham acesso em condições ao evangelho de Cristo. No início do século XX, apenas 10% dos protestantes em todo o mundo se encontravam fora do Ocidente, e era nesta zonaque estava a maioria dos cristãos. Hoje, a igreja de Jesus Cristo é o movimento mais diverso da história da humanidade. Existem mais pessoas em mais países e que falam mais línguas a confessar o nome de Jesus do que em qualquer outro momento no decorrer dos tempos. O Movimento de Lausanne desempenhou um papel importante no lançamento de inúmeros movimentos de plantação de igrejas em todo o mundo, incluindo no Ocidente, muitos dos quais usam o Pacto de Lausanne como declaração de fé.

O magnífico trabalho do Joshua Project (Projeto Josué), a iniciativa Adopt-a-People (Adote um Povo), AD 2000 & Beyond, o vasto alcance da International Missions Board (Junta de Missões Internacionais) da Convenção Batista do Sul (EUA), a World Christian Database (Base de dados do Cristianismo Mundial), entre outros, não teriam o mesmo impacto sem Lausanne.

Como alguém que tem acompanhado Lausanne desde o início do Movimento, talvez seja justo notar que este se tem focado cada vez mais na parte prática de missões, por vezes em detrimento de uma reflexão teológica e missiológica saudável. No princípio, John Stott e Billy Graham representavam uma parceria sem igual entre clareza teológica e a praxis do ministério. Ambos compreendiam muito bem a importância do papel que desempenhavam para o sucesso e sustentabilidade do movimento na sua expressão mais vasta. À medida que o tempo avançou, o Movimento de Lausanne tornou-se mais globalizado, mais diverso e menos centralizado. De facto, só nos últimos dez anos é que ele pode reivindicar um estatuto real de representação global. Durante este processo, todavia, valorizou-se cada vez mais a vertente prática de missões e o valor genérico da construção de relacionamentos transculturais no seio do cristianismo global. Se Lausanne quiser, no entanto, continuar a ser uma força vibrante, os alicerces teológicos do Movimento e a chamada para uma reflexão missiológica mais perspicaz deverão permanecer em primeiro plano.

O surgimento de um novo ecumenismo: a mudança da expressão do cristianismo global e o colapso do paradigma “o Ocidente alcança o resto do mundo”

Se recuarmos a 1990, quando a revista Christian History publicou os cem acontecimentos mais importantes da história do cristianismo, não encontramos uma só referência a algo que tenha decorrido em países em desenvolvimento, ou tenha sido começado por cristãos desses territórios. Por estarmos numa posição privilegiada no presente, ocasionalmente esquecemo-nos da lentidão com que a igreja tem reconhecido a evolução impressionante do cristianismo em África, na Ásia e na América Latina. A prática de missões continuou largamente inserida num paradigma que assumia a existência de uma igreja vibrante no Ocidente, mobilizada para levar o Evangelho ao resto do mundo. Na verdade, foi o movimento de Lausanne que deu eco (e, literalmente, uma plataforma) a um grande número de novas vozes no cristianismo mundial, patrocinando várias conferências de relevo dedicadas à identificação de líderes emergentes à escala global. Foi em 2004, na Consulta de Pattaya (Tailândia), que juntou 1500 líderes de todo o mundo, que Lausanne começou, de facto, a ser intencionalmente global em termos da sua liderança, representatividade em encontros e na abordagem séria a muitos dos desafios estruturais, linguísticos e culturais que impediam uma globalização total do movimento.[118]

O crescimento dos movimentos cristãos independentes e autóctones de 8 milhões no início do século XX para 423 milhões à entrada do século XXI estava, finalmente, a ser reconhecido como uma das alterações demográficas mais importantes na história do cristianismo. Philip Jenkins, através das obras The Next Christendom, New Faces of Christianity e God’s Continent, popularizou o que já era uma realidade no Movimento de Lausanne. Num período relativamente curto, a igreja do Ocidente começou finalmente a reconhecer que se encontrava num novo campo missionário emergente, e que muitos dos movimentos cristãos mais vibrantes no mundo provinham de países que, durante séculos, foram considerados eles mesmos como campos de missão. Nos dias de hoje é impensável conceber a evangelização mundial sem a total colaboração de “toda a igreja, levando todo o Evangelho para o mundo todo”.

A redescoberta de um Evangelho maior: um Evangelho holístico para o mundo todo

Nas primeiras décadas do século XX, o movimento evangélico estava gravemente longe de reconhecer o seu compromisso claro de servir os pobres, combater a injustiça e abordar os grandes males estruturais que encurralam as pessoas e as privam dos seus direitos. O legado do evangelicalismo sempre foi um Evangelho mais holístico. E poucos tinham um compromisso tão forte com ele como o movimento missionário. Todavia, a controvérsia fundamentalista-modernista no final do século XIX e início do século XX levou à polarização entre evangelismo e ação social de formas que, historicamente, não se enquadravam na vida da igreja. Em traços gerais, o fundamentalismo tendia a reduzir o Evangelho a uma mensagem de salvação pessoal. Por contraste, a posição modernista assumia uma inclinação para equiparar o Evangelho ao nosso testemunho social mais alargado e corporativo, reduzindo a ênfase no arrependimento e fé pessoal em Jesus Cristo. A verdade é que o Evangelho engloba ambos. O Movimento de Lausanne ajudou a influenciar e incentivar a igreja em torno de uma missão redentora mais ampla. A Consulta de 1982 acerca do relacionamento entre evangelismo e ação social foi um dos vários eventos que ajudaram a igreja a reenquadrar este tema. Hoje, milhões de cristãos que foram influenciados pelo Movimento de Lausanne estão a abordar problemas que vão do tráfico de seres humanos à pobreza e ao cuidado pela criação. Na realidade, o Movimento de Lausanne patrocinou várias Consultas ao longo dos anos acerca de centenas de tópicos, o que permitiu aos cristãos pensarem com mais qualidade sobre problemas que constituíam um legado legítimo do testemunho cristão.

Colaboração mais profunda com toda a igreja: uma nova compreensão do significado de parceria

Um dos temas que une todos os principais documentos de Lausanne que analisámos antes, é a chamada para uma colaboração mais profunda com a igreja global, especialmente para juntar a “família evangélica” mais alargada que dela faz parte. Com especial relevo nas primeiras décadas de existência, o Movimento de Lausanne tendia a evitar colaborar com grandes organismos conciliares de cristãos. Contudo, à medida que o tempo passou, deu-se uma abertura significativa ao diálogo com a igreja católica romana, ortodoxa oriental e principais igrejas protestantes, particularmente quando se tornou claro que estes movimentos continham muitos cristãos que partilhavam o compromisso fundamental de Lausanne para a evangelização mundial. Lausanne também encontrou dificuldades para se manter um “movimento” e não se tornar numa “organização”. Enquanto movimento, é uma plataforma sem igual em que vários grupos se podem reunir e colaborar em torno de um compromisso comum para fazer avançar o evangelho no mundo. Enquanto organização, poderia criar confusão em relação a outras organizações mais antigas, como a Aliança Evangélica Mundial. Lausanne tem de se esforçar para continuar a ser uma “plataforma” para uma série de outras organizações, congregações cristãs e movimentos eclesiásticos.

O Movimento cumpre melhor o seu papel quando ajuda a facilitar parcerias para a implementação prática de missões no terreno em todo o mundo. Possibilitou ainda debates fundamentais para a redefinição daquilo que se entende por parceria. Um dos exemplos foi o Fórum para a Evangelização Mundial de 2004 em Pattaya, Tailândia, em que mais de 1500 líderes, provenientes de todas as partes do globo, se reuniram para discutir 31 problemas que tinham sido identificados como obstáculos à evangelização. Um dos assuntos mais importantes sobre a mesa em Pattaya foi o dos relacionamentos saudáveis. Tornou-se claro que muito do que era descrito como sendo uma parceria ainda continha elementos prejudiciais, devido a diferenciais de poder que são inevitáveis quando existem fatores como o poder e o dinheiro. As conversas abertas e sinceras que tiveram lugar causaram um impacto significativo no campo missionário real em todo o mundo. Foi finalmente reconhecido que as igrejas das regiões mais pobres do mundo acrescentam um valor substancial que não pode ser quantificado financeiramente à igreja global.

Conclusão

O Movimento de Lausanne continua a ser uma força vibrante que contribui para a evangelização mundial. Os subscritores originais de 1974 mal podiam imaginar que estavam a criar um movimento global extraordinário desta magnitude. O legado teológico de Lausanne tem sido uma das contribuições mais duradouras para a igreja em todo o mundo. E não há dúvida de que a fé cristã histórica, que emana com tanta clareza do Movimento de Lausanne, é, de facto, a base real do seu impacto missiológico igualmente tremendo. Por conseguinte, os distintivos teológicos e o impacto missiológico não estão separados, mas são um aspeto compreendido a partir de duas perspetivas. É evidente que toda a honra e glória pertencem a Deus por ter dado origem a este movimento que, apesar das suas muitas insuficiências, abençoou de inúmeras maneiras milhões de novos cristãos pelo mundo inteiro. É difícil imaginar que a igreja global se conseguisse reunir nestes eventos memoráveis para adorar a Deus, debater e colaborar em tantas iniciativas que dão tanto fruto sem a plataforma que é Lausanne. Para concluir, Lausanne não se trata de documentos ou encontros globais. Trata-se de cristãos a trabalhar e orar em conjunto, partilhando um compromisso para vermos, na nossa geração, “todo o Evangelho levado por toda a igreja para o mundo todo”.[119]

 

[109]Os três documentos fundamentais do Movimento de Lausanne podem ser encontrados em www.lausanne.org. Todas as citações indicadas neste capítulo foram retiradas do Pacto de Lausanne, do Manifesto de Manila e do Compromisso da Cidade do Cabo, salvo indicação em contrário.

[110] Para saber mais acerca de como os evangélicos entendem a autoridade da Bíblia, consulte John R. W. Stott, The Authority of the Bible (Grand Rapids, MI: InterVarsity Press, 1999). O Movimento de Lausanne acolhe tanto os que entendem “sem erro” como sendo uma inerrância aplicada a todos os pormenores, bem como quem o compreende como uma inerrância limitada, ou seja, que reconhece que a Bíblia é inteiramente de confiança mesmo se quem a escreveu não tenha acertado em todos os pormenores técnicos, ou em certos factos históricos e científicos de menor importância, ou quando surgem detalhes diferentes ou resumos gerais de certas afirmações devido à existência de múltiplas testemunhas do mesmo acontecimento.

[111] Ver John R. W. Stott, The Cross of Christ, edição de estudo (Grand Rapids, MI: InterVarsity Press, 2010).

[112] Para saber mais acerca do debate acerca do relacionamento entre eclesiologia e a natureza da evangelização, ver Simon Chan, Liturgical Theology (Grand Rapids, MI: IVP, 2006).

[113] Para conhecer mais a fundo o debate no meio evangélico acerca da relação entre evangelismo e ação social, ver Timothy C. Tennent, Invitation to World Missions: A Trinitarian Missiology for the 21st Century (Grand Rapids, MI: Kregel, 2009), 387-406.

[114] As organizações missionárias aplicam diferentes critérios para a definição de “povo” e para determinar se este se enquadra na categoria “alcançado” ou “não alcançado” pelo Evangelho. As três bases de dados públicas de maior relevância (sendo que todas aplicam critérios diferentes) podem ser consultadas em www.joshuaproject.net e http://imb.org/globalresearch/ e http://worldchristiandatabase.org/wcd. Para uma análise completa ao papel de Lausanne no debate acerca dos povos não alcançados e ao desenvolvimento do tema ao longo dos últimos quarenta anos, ver Timothy C. Tennent, Invitation to World Missions, 354-386.

[115]Bruce J. Nicholls e David Hesselgrave, Communicating Christ Cross-Culturally, 143, 144.

[116] A comunicação de Ralph Winters, incluindo o texto enviado a todos os delegados antes do Congresso de 1974 e a comunicação apresentada em Lausanne, está disponível em www.lausanne.org/documents.

[117] Georg Vicedom, The Mission of God: An Introduction to the Theology of Mission; traduzido por Gilbert A. Thiele e Dennis Hilgendorf (Saint Louis, MO: Concordia Publishing House, 1965), 5. A citação de Vicedom pertence a Hans Hartenstein.

[118] Todos os documentos dos grupos de trabalho que se reuniram em Pattaya foram publicados em três volumes. Ver David Claydon (ed), A New Vision, A New Heart, A Renewed Call (Pasadena, CA: William Carey Library, 2005). Muitos destes documentos estão disponíveis em www.lausanne.org/documents.

[119] A bem conhecida frase de Lausanne, “todo o Evangelho levado por toda a igreja para o mundo todo”, refere-se ao grande mandato missionário da igreja global. Este mandato não pode ser cumprido apenas por aqueles que estão ligados ao Movimento de Lausanne ou a qualquer denominação, organização ou movimento. Antes, esta é uma afirmação visionária que aponta para o magnífico objetivo coletivo que é o povo de Deus desde o princípio dos tempos só ficar verdadeiramente consumado aquando do regresso de Cristo.

 

 

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Date: 25 jul 2014

Grouping: Lausanne 40th Anniversary


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