Testemunhando o Amor de Cristo a Pessoas de Outras Crenças

Observação do Editor: Este Documento Avançado Cape Town 2010 foi escrito por Michael Ramsden com o objetivo de oferecer um panorama geral do tema a ser discutido na sessão Plenária Matutina, intitulada “Testemunhando o Amor de Cristo a Pessoas de Outras Crenças.” Comentários sobre este documento feitos através da Conversa Global Lausanne serão enviados ao autor e a outras pessoas para ajudar a moldar as apresentações finais que farão no Congresso.

“E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel e dos profetas, os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados. Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus.”(1)

O amor tem um alto preço. Com base no amor, algo pode ser oferecido sem custo algum, mas isto não significa afirmar não ter custado nada ao doador.

Pode ter lhe custado tudo. No entanto, quando se trata de testemunhar a pessoas de outras crenças, parecemos estar procurando métodos e meios que não nos custem nada. A única maneira de atingirmos tal objetivo seria sem amor – o que talvez explique porque muitas vezes a mensagem seja ouvida como o bronze que soa, ou o címbalo que retine. O amor rejeitado é doloroso – Jesus expressou seu desejo sincero diante da rejeição intransigente. Há uma necessidade urgente de que dediquemos nossas vidas na busca dos perdidos da mesma forma como Ele entregou Sua vida e nos resgatou. Foi EM Bounds quem fez a conhecida afirmação que enquanto procuramos métodos melhores, Deus procura melhores homens, e, talvez, precisemos nos preocupar mais em transformar nossos corações do que em aperfeiçoar nossos métodos.

Ao preparar Seus discípulos para as provações deste mundo, Jesus lhes disse que enfrentariam aflições. Talvez, eles tenham pensado que, com Deus ao lado deles, nenhum sofrimento lhes sobreviria. Entretanto, Jesus  lhes disse:

“Tenho-vos dito estas coisas para que vos não escandalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus…” (2)

Pouco antes de de pronunciar estas palavras, Jesus tinha dito: “Também vós dareis testemunho…”(3) A palavra “testemunha” vem do grego “martys”. Esta palavra foi traduzida para o latim como “martir”, mas seu uso desenvolveu-se durante a história da igreja, e ela tornou-se a palavra “mártir” como a compreendemos hoje.  No entanto, mesmo no Novo Testamento, a relação entre ser uma testemunha e o sofrimento que isto implica é muito clara. Somos todos chamados para ser testemunhas. Sendo fiéis testemunhas de Cristo, a perseguição virá de fato. “Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós” (4); “O mundo odiou a mim,” Cristo disse (5), e, portanto, não deveríamos nos surpreender diante do ódio que nós mesmos despertamos pelo nome dEle. (6) Ao lermos Hebreus, fé e fidelidade levam à grandes vitórias no Seu nome – reinos foram conquistados, a justiça foi praticada, as promessas foram alcançadas, bocas de leões foram fechadas, a força do fogo foi apagada, do fio da espada escaparam, exércitos estrangeiros foram postos em fuga, as mulheres receberem os seus mortos pela ressurreição; e também a um alto preço conforme a visão do mundo: alguns foram torturados, outros sofreram escárnio, açoites, cadeias e prisões. Eles foram apedrejados, serrados ao meio, mortos pela espada. Realmente, eles eram aqueles de quem o mundo não era digno.

Portanto, vamos deixar de lado qualquer pensamento que tenhamos sobre sermos capazes de testemunhar a pessoas de outras crenças sem custo nenhum. Assim como há grandes milagres – salvo do fio da espada – há também grande martírio: muitos foram mortos pela espada. Não há contradição nenhuma aqui. Apenas a certeza de que somos chamados para dar nossas vidas no serviço dEle, e que um dia seremos chamados de volta para casa.

Vamos lembrar também que seguimos os passos dos “mártires”, das testemunhas que foram antes de nós. Eles não eram simples espectadores à procura de entretenimento. Foram adiante de nós e terminaram bem a corrida.

Não são poucos, são uma grande nuvem. Nos lugares que ocupam não há espaços vazios;  estão todos ocupados com aqueles que entregam suas vidas para servir Àquele que é o próprio autor da vida, e que hoje tem a vida eterna através do autor e consumador desta fé. Estamos cercados por grande nuvem de testemunhas, como lemos em Hebreus.  Por isso não podemos perder nosso coração, nem a direção, mas com os olhos fixados em Cristo, vamos correr para Aquele que desprezou a vergonha da Cruz, e hoje está assentado à destra de Deus. Vamos fixar nossos olhos nas coisas do alto.

Este não é um momento inédito na história. Há sempre um preço para alcançar pessoas com as boas novas de Jesus. É um preço que, talvez, muitos que declaram o nome de Jesus não estejam dispostos a pagar. Mas este é o contexto no qual o Evangelho criou raízes e se espalhou. Pregar uma mensagem de arrependimento e fé sempre foi um desafio. Tenho tido o privilégio de falar em alguns lugares do mundo onde a segurança pessoal não é garantida. É sempre frustrante ouvir pessoas que se preocupam e desaconselham que eu vá a um determinado lugar por causa do grande risco que corro. Entretanto, nosso objetivo não é conservar nossas vidas a qualquer preço, e sim viver nossa vida em obediência ao chamado que recebemos. Não fomos chamados para ignorar o risco, nem para sermos negligentes. Tudo deve ser considerado através da oração. Mas, recusar o chamado de Deus de ir em razão das dificuldades é exigir algo que os primeiros Apóstolos teriam dificuldade em reconhecer como obediência cristã genuína.

Em Hebreus, encontramos vários indicadores:

  1. Leve pouca bagagem. Não deixe que o peso do pecado ou a fadiga trazida pelo mundo o impeçam de continuar. Estamos permitindo que as coisas deste mundo nos sobrecarreguem?
  2. Tome cuidado. Fique atento ao pecado que facilmente nos envolve e se prende a nós, reduzindo nossa marcha e, eventualmente, nos fazendo tropeçar. Estamos espiritualmente vivos e alertas?
  3. Corra. É uma corrida de resistência. Não é de pequena distância. Estamos em uma maratona. Corremos o risco de desfalecer antes do final, sem vivermos nossa vida de forma a honrarmos a Deus?
  4. Concentre-se. Fixe os olhos em Cristo. Não se distraia, o que facilmente nos leva ao desespero, mas mantenha os olhos firmes em nosso objetivo, aquele que temos hoje e teremos por toda a eternidade. Há somente um Evangelho que temos que pregar. Estamos olhando para Deus ou para o homem?
  5. Alegre-se. Cristo aguardava a cruz com alegria. Não porque seria uma experiência agradável. Alegre-se no fato de que, embora nosso homem exterior esteja se consumindo, o interior está sendo renovado. Se corrermos bem, há muito para esperar, mesmo diante da morte: “alguns foram torturados , não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição.” (7)

Esta passagem de Hebreus está repleta da esperança da ressurreição do começo ao fim. Seguimos passos não dos mortos, mas daqueles que têm a esperança de uma nova vida em Cristo, uma vida ressurreta que Cristo já conquistou por nós. Não devemos temer a morte; se perdermos nossa vida por Cristo, ao final, nós a teremos guardado.

Outros documentos escritos nesta série abordam outros aspectos vitais que poderiam ser apresentados aqui. Em especial, quero destacar o documento de Rebecca Manley Pippert. Eu não falei sobre oração e proclamação, sobre as Escrituras e o Espírito Santo, Cristo e a cruz. Estes temas são essenciais: o objeto de nosso testemunho, o poder por trás de nosso testemunho, o conteúdo de nosso testemunho, o objetivo de nosso testemunho e a natureza de nosso testemunho. Mas, a menos que compreendamos que, sob a luz do Evangelho, por causa do Evangelho e para o Evangelho, devemos estar preparados para seguir os passos daqueles que foram antes de nós em obediência à missão de Deus, não poderemos nem sequer começar a abordar o assunto.

Quero acrescentar mais duas reflexões. Para a igreja primitiva, qualquer pessoa era, por definição, “de outra crença”.  Por isso aprendemos muito só com a leitura do Novo Testamento. Primeiramente, vemos como a Bíblia usa as testemunhas. Como escreveu A A Trites sobre o Evangelho de João: (8)

O Quarto Evangelho oferece o pano de fundo para a mais extensa controvérsia do NT. Aqui, Jesus tem um processo judicial contra o mundo. Dentre as testemunhas dEle estão João Batista, as Escrituras, as palavras e as obras de Cristo, e mais tarde, o testemunho dos apóstolos e o Espírito Santo. Eu acrescentaria que nós também estamos sendo chamados para testemunhar. Do lado oposto está o mundo…João tem um caso para apresentar e por esta razão ele expõe argumentos, faz perguntas jurídicas e apresenta testemunhas nos moldes das assembléias do AT. A mesma observação aplica-se ao Livro de Atos, embora Lucas desenvolva seu caso de maneira diferente da de João.  Todo este material é sugestivo para os defensores do século vinte. A pessoa e o lugar de Jesus são temas bastante contestados. Hoje, as declarações de Cristo como Filho de Deus são muito debatidas. Em tal ambiente, um resumo precisa ser apresentado, os argumentos expostos e testemunhas de defesa, chamadas, se caso for dada a devida atenção ao cristão. Falhar na apresentação de provas em favor do Cristianismo seria equivalente a conceder a vitória aos oponentes. Isto significa afirmar, que o tema controverso, tão evidente no NT, aparenta ser profundamente pertinente à tarefa missionária da Igreja atual. … Vale observar que o testemunho fiel com freqüência implica em sofrimento e perseguição”.

Há três marcas destas testemunhas bíblicas:

  1. Primeiro, as testemunhas estão passionalmente envolvidas no caso que desejam apresentar. Elas estão envolvidas por ele, e por isso têm uma compulsão interior por defender o mérito do caso que testemunharam. Como seus predecessores do primeiro século, elas podem falar só do que viram e ouviram.
  2. Em segundo lugar, as testemunhas são responsabilizadas pela veracidade de seu testemunho. O perjúrio era, e ainda é, uma ofensa passível de pesada punição. Vemos em Paulo este sentimento solene de ter a obrigação perante Deus de falar a verdade. Por quatro vezes, Paulo declara “Deus é minha testemunha…”
  3. Em terceiro lugar, as testemunhas devem ser fiéis não apenas ao simples fato do evento Cristo, mas também ao seu significado. Isto implica apresentar Cristo e Sua mensagem.

Em segundo lugar, devemos refletir sobre nossa credibilidade como testemunhas. Alguém pode ser uma excelente testemunha ocular de um acontecimento, mas se for conhecido como um beberrão, seu testemunho de qualquer evento será questionado. Devemos ser conhecidos por nossos frutos. Tito 2:14 nos diz que o “propósito da morte de Cristo foi purificar para si mesmo um povo zeloso das boas obras”(9). Os frutos não são o fundamento da nossa salvação, mas são a sua prova, e por eles nosso Evangelho é “adornado e recomendado a outros.” (10)

Infelizmente, parece que, como igreja, temos lutado contra o equilíbrio entre as boas obras e pessoas ansiosas por realizá-las, e a pregação do Evangelho. No entanto, estes dois sempre caminham juntos. Os autores do Pacto de Lausanne tiveram exatamente a mesma dificuldade, e faríamos bem em refletir sobre o equilíbrio que expressaram: “A igreja pode evangelizar (pregar o Evangelho); mas o mundo ouvirá e prestar atenção à mensagem? Não, a menos que a igreja preserve sua própria integridade, insiste o Pacto. Se esperamos ser ouvidos, devemos praticar o que pregamos… Em particular, a Cruz deve ser tão central em nossas vidas quanto é em nossa mensagem. Pregamos o Cristo crucificado (I Cor. 1:23)? Então, lembremo-nos que uma igreja que prega a Cruz deve ser, ela mesma, marcada pela Cruz..” (11)

O que pregamos deve ser expresso em nossas vidas. Caso contrário, sempre seremos vistos oferecendo teorias e especulações, enquanto o mundo procura uma transformação concreta.

Há muitos temas que poderiam ser discutidos neste documento avançado. Há muitos modelos e abordagens eficazes, algumas das quais descritas e discutidas neste fórum. Também fizemos suposições amplas, a saber, que concordamos que devemos ser testemunhas, que concordamos quanto a quem devemos testemunhar, e que o propósito deste testemunho é fazer discípulos entre as nações. Outros estarão discutindo esses temas.

Entretanto, sem a decisão de aceitar que somos chamados para entregar nossas vidas, o que temos é apenas uma teoria gloriosa e nenhuma ação. No outro extremo, o perigo de nos lançarmos à ação sem crescer na compreensão do Evangelho também acaba por aleijar a igreja; sem raízes profundas, a igreja enfraquece. Estamos preparados para pagar o preço?

Que todos aprendamos a ser testemunhas verdadeiras.

© The Lausanne Movement 2010

  1. Hebreus 11:32-12:2
  2. João 16:1-2
  3. João 15:27
  4. João 15:20
  5. João 15:18
  6. João 15:21
  7. Hebreus 11:35
  8. “Witness, Testimony” in New International Dictionary of New Testament Theology, Vol.3, Trans with additions from Theolgisches Bergriffslxikon Zum Neuen Testament, A A Trite, Colin Brown, General Ed,  1976.
  9. John Stott, Tito, A Bíblia Fala Hoje, baseado em Tito 3:1-8.
  10. Ibid. Tito 2:9-10.
  11. O Pacto de Lausanne: Exposição e Comentário de John Stott
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Date: 30 jul 2010

Grouping: Cape Town 2010 Advance Paper

Encontros 2010 Cape Town